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Toda vida se enche de mil mortes. Na explicitação da antítese, revela-se o sentido da figura de linguagem, quando a explosão de alegria circunscrita aos espaços onde se disputam as partidas da copa do mundo contrasta atrevidamente com a miséria que assola a maioria dos países africanos. A inexistência de estratégia eficaz para debelar a fome causa a perda injustificável de vidas humanas e denuncia o crime tipificado no desperdício de alimentos jogados no lixo por omissão das lideranças políticas mundiais, cuja irresponsabilidade se consuma no fracasso da missão pretensamente assumida pela FAO. A mídia itinerante censura e ignora a miséria africana ao fazer a cobertura dos jogos, subordinando o dever de informar às conveniências dos promotores do evento e patrocinadores das transmissões, mas não elide a verdade nua e crua que agride a dignidade humana. O circo do futebol atrai as atenções para o espetáculo, afastando-as das tragédias costumeiramente anunciadas nas regiões onde a vida sucumbe à exploração, ao abandono e à injustiça. Sob o eco de hinos ufanistas, que cantam glórias supostamente conquistadas por bravura, morre-se de fome na África à sombra da indiferença dos homens que deveriam salvá-la. O berço da humanidade pode servir-lhe de sepultura. Quem acompanhou as olimpíadas de Pequim e assistiu à entrevista com a mulher analfabeta, cuja pobreza material o governo chinês pretendeu ocultar ao afastá-la do centro das atrações para enfatizar as tardias conquistas do regime, percebe no comportamento assumido pela África do Sul a intenção de camuflar verdades inconvenientes. O êxtase plural dos estádios desdenha a singular agonia nacional. A África do Sul sabe-se aviltada por séculos de colonialismo inglês, cujo odioso preconceito instituiu a segregação racial, tolheu a liberdade do povo e desconheceu a identidade do país, na trilha de crimes hediondos exaustivamente praticados e jamais punidos. Violentado na escravização dos nativos e explorado no esgotamento das riquezas naturais, o continente africano sofre com a oposição de antigos exploradores à construção da sociedade justa e igualitária desejada por quaisquer povos subdesenvolvidos. Fortemente marcada pelo desemprego e pela AIDS, a África do Sul luta contra a herança colonialista, que faz das minorias brancas os segmentos com maior renda e melhor qualidade de vida no país. Na contemplação da copa do mundo, olhares seletivos não identificam o neorracismo ressurgente nas entranhas da resistência africânder, inconformada com o fim do apartheid. Dizendo acreditar na pureza da raça branca e querendo um país só para eles, os órfãos do segregacionismo murmuram raivosamente que os negros devem voltar para as tribos de origem e reavivam as raízes do ódio racial, que os ingênuos acreditavam haverem sido erradicadas do solo africano. O sofrimento de Nélson Mandela contribuiu para a libertação da África do Sul, mas a liberdade não se consolidou no tratamento igualitário das raças, porque a minoria branca invasora se acredita melhor que a maioria negra aborígine. O conflito racial dissimulado pode eclodir e a paz aparente, ruir, se os negros resolverem que os brancos devem retornar para os países de onde vieram. Quando a vida se enche de mil mortes, não há muito a festejar. j.acazella@ig.com.br Advogado e professor em São Carlos.
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