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Cirilo Braga
O falecimento de Celinho Dibo, emblemático personagem da velha “Baixada do Mercado”, trouxe a lembrança de épocas em que aquele pedaço da cidade tinha pontos de encontro como já não existem mais. E não falemos de um passado muito distante, mas de algumas décadas atrás, quando pontificou na paisagem da baixada o Bar Pistelli.
Funcionou durante anos a fio na rua Episcopal, no meio do quarteirão entre as ruas General Osório e Geminiano Costa. Endereço de um café delicioso e de um bauru inigualável. Pontificavam no cardápio o café que seu Ernesto Pistelli servia e o bauru divinamente preparado por Agenor e Nim para deleite de uma clientela pra lá de eclética. Dos moradores e comerciantes tradicionais da baixada (Baffa, Botta, Dibo, Mitre, Muzkat, Piovesan, Ruggiero, Muszkat e os irmãos Duarte de Souza) – aos tipos costumeiramente à cata de uma boa prosa. Ou apenas interessados em bater ponto no lugar onde todos se sentiam protagonistas da cena são-carlense.
Ernesto Pistelli - me conta um saudoso conviva do bar - foi um senhor que gostava muito de dançar, um pé de valsa juramentado que costumava freqüentar os bailes do Instituto Cultural Ítalo Brasileiro. Repare no nome do clube: instituto cultural. Porque não era outra coisa senão cultura o que pairava pela baixada nos tempos em que, entre uma enchente e outra, as pessoas se encontravam pelo simples gosto de confraternizar-se.
Seu Ernesto, que obviamente ganhava os concursos de dança dos bons tempos, era uma figura de estatura alta, cabelos grisalhos ondulados e óculos de aros grossos, típicos daqueles anos 70 em que o “Pistelli” viveu o seu auge, tendo como sócios os irmãos Domingos e Mário Bartolo. Tutti buona gente.
Celinho Dibo mantinha uma mesa cativa do lado direito do bar. Ali surgiu o time chamado Sereno, que brilhava nas fazendas e atraía jogadores profissionais como o célebre centroavante Ditão. Ali se cunhou a expressão "Parabola", que seria o nome de batismo do time de vôlei fundado por José Fernando Favoretto, o Zezão, que marcou época e encarou os gigantes do vôlei nacional. Ali se reuniam os atletas, os torcedores, era a Meca dos craques que visitavam São Carlos. Nenhum deles teria passado realmente pela cidade se não marcasse presença no Pistelli.
Típico bar interiorano de cenário irretocável: a prateleira com garrafas de bebidas e maços de cigarro, a tabela ao fundo indicando os lanches disponíveis com o preço em cruzeiros. O cortador elétrico de frios. Os funcionários e fregueses ao redor do balcão repleto de refrigerantes, cervejas, doces, bolos, chocolates, etc. Na parede ao fundo do lado esquerdo ficavam dispostos alguns troféus sobre duas prateleiras e ao centro o relógio a cujo ponteiro os assíduos habituês pareciam indiferentes. Mais ao lado, claro, a fotografia de um time de futebol (seria o Viracopos?). E troféus, muitos deles, saltavam aos olhos dos políticos e abastados senhores que invariavelmente apareciam por lá. Alguns trajados a rigor: de terno branco, gravata ou chapéu. Contraponto às faixas, religiosamente colocadas para anunciar o início de um novo campeonato de futebol ou de vôlei.
No Pistelli também se celebravam as vitórias do Madrugada e depois do Grêmio São-carlense. Ou se saboreava o clima de Copa esbanjando confiança na seleção canarinho. Não importava qual fosse a Copa.
Quem viveu aqueles anos guarda a lembrança daquela liturgia cotidiana de respirar o inconfundível aroma de café mesclado com a fumaça dos cigarros e o cheiro de bife, tomate e mussarela na chapa. E o alarido de tantas vozes.
O Pistelli acabaria como um Tango. Era o nosso Caminito que terminou da mesma forma com que partiram seus personagens mais típicos. Como se ao fundo se ouvisse o som de um velho acordeão recitando versos imortais: “Caminito amigo, desde que se fue, triste vivo yo; caminito mio nunca más volvió; seguiré sus pasos, caminito, adiós”.
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