Foi uma febre na internet, mas ainda vale a pena um comentário. Um redator do futuro programa de Marcos Mion na Record, Maurício Meirelles, postou em seu Twitter a seguinte mensagem: “Hoje estou mais feliz que a Sonia Abrão em um enterro”.
[lm] Não precisou de mais nada para se desencadear uma série de comentários sobre a apresentadora da Tarde é sua, da Rede TV! e sua íntima ligação com assuntos, digamos, mórbidos.
Ora, não sejamos hipócritas. É fácil perceber que por trás desses tons apelativos e sensacionalistas está apenas a eterna briga pela tal de audiência. Quem se lembra de um caso clássico, agora esquecido pela mídia, de Gugu Liberato, quando ainda apresentava o Domingo Legal, ter forjado um depoimento com falsos integrantes do PCC? Ou o sushi erótico, do Domingo do Faustão?
Sonia Abrão nada mais faz que oferecer ao público aquilo que ele quer ver. Brincando, seu programa consegue uma média de quatro pontos no Ibope (só para constar, esse método é feito por amostragem, ou seja, não são todos que participam; nas televisões são instaladas, com o consentimento do dono da casa, um aparelho que envia os dados mostrando qual o canal é assistido naquele momento. Cada ponto equivale a aproximadamente 60 mil pessoas). Voltando ao assunto: por baixo, por baixo, os necrológios da apresentadora atingem a um público médio de 240 mil pessoas – número muito expresssivo para um programa vespertino.
Tal fato só confirma o que foi escrito. Se Sonia Abrão tem uma queda para a tragédia, é porque seu público não apenas quer, mas exige esse tipo de programa. E não é de hoje que o ser humano é hediondo. A descrição de fatos e fatos poderia ser extensa, mas basta resumir o pensamento a apenas uma premissa: quem gosta mesmo de sangue, quem tem vocação para a coisa é Zé do Caixão, o grande carniceiro do audiovisual brasileiro – um herói do cinema, não por fazer filmes com a (falta de) qualidade que fez, mas por não desistir de seu gênero. Sonia Abrão só faz ecoar a frase do grande locutor, hoje afastado da grande mídia, Januário de Oliveira: “é disso que o povo gosta”.
Enquanto formos obcecados pelas barbaridades, programas como os de Sonia Abrão terão sucesso e mídia. Para uma mudança na programação brasileira, é necessário que haja uma reflexão maior daquilo que gostaríamos de ver. Esse é o primeiro e vital passo para uma renovação completa. Caso contrário, ficaremos sempre nessa tática do morde, assopra e assiste. A qualidade que queremos tem que vir, antes de tudo, na nossa definição de gosto. Permanecendo do jeito que está, estamos fadados à mediocridade televisiva e a mitificação imbecil de personagens que deveriam ser esquecidos.
Em tempo: na terça-feira, dia nove, esse São Carlos em rede completa um ano no ar. A audiência só referenda que a cidade já reflete as tendências das grandes mídias, que é a de informações gratuitas, com credibilidade, bem como um espaço para a reflexão e o debate. O caminho do jornalismo é esse e é inevitável. Quem não estiver em rede está fadado ao fracasso. Celebremos, pois, o acesso à informação gratuita e a diversidade de opiniões.