14º Cine Tuca: Uma noite inesquecível

Projeto Contribuinte da Cultura de São Carlos exibiu “Fênix: o voo de Davi” com apoio do GloboNews, do Museu Nacional do Rio de Janeiro e com a participação online ao vivo do músico Paulinho Moska

O Instituto Mário de Andrade (IMA) e o Projeto Contribuinte da Cultura de São Carlos exibiram, em sessão on-line no dia 17 de maio, seu 14º Cine Tuca com o documentário “Fênix: o voo de Davi”. Antes da exibição, foi realizada uma roda de conversas, em transmissão ao vivo, com o músico Paulinho Moska, um dos artistas que participam desse trabalho, conduzindo a narrativa do documentário.

¨Fênix: o voo de Davi”, documentário co-produzido em 2021 pelo Globoplay e GloboNews, apresenta o trabalho do bombeiro e luthier Davi Lopes, que atuou no combate às chamas no incêndio do Museu Nacional/UFRJ, em setembro de 2018, e a partir das madeiras resgatadas produziu instrumentos musicais como violão, bandolim, violino e cavaquinho. Artistas como Gilberto Gil, Paulinho da Viola, Paulinho Moska, Hamilton de Holanda, Nilze Carvalho e Felipe Prazeres participam do documentário, tocando nos instrumentos feitos por Davi.

São peças preciosas, tanto por sua história e significado quanto pela qualidade técnica e artística de fina luthieria na construção desses instrumentos. Verdadeiras obras de arte.

Em show realizado em abril no Sesc São Carlos, Paulinho Moska se apresentou com dois desses violões produzidos por Davi Lopes e contou a história do documentário, momento registrado em resenha assinada pelo jornalista Pedro Varoni.

Fátima Camargo, Presidente do IMA, destaca que esse Cine Tuca só foi possível graças ao apoio do Globoplay e do Museu Nacional, que liberaram a exibição do vídeo. “Quero agradecer ao Globoplay, a Carolina Feital, do Núcleo de Comunicação do Museu Nacional, e especialmente a Roberta Salomone, uma das diretoras do documentário pela liberação de uma cópia autorizada para exibição no nosso Cine Tuca. Além desse apoio, o encontro foi potencializado pela participação virtual, mas em tempo real, do Paulinho Moska contando toda a história. Foi uma noite muito especial que deixou em todos um sentimento forte e transformador, de que que estamos precisando ainda mais neste momento, sentimento de que o bem, a sabedoria e a sensibilidade possam prevalecer sobre todas as coisas”.

Em breve, a gravação da roda de conversa com Paulinho Moska do 14º Cine Tuca, sobre o documentário “Fênix: o voo de Davi”, estará disponível no canal Projeto Contribuinte da Cultura no Youtube.

A seguir, a resenha de Pedro Varoni, escrita após a apresentação de Moska no Sesc São Carlos, no dia 8 de abril. Todo o repertório desse show foi tocado com os violões construídos pelo bombeiro e luthier Davi Lopes, com madeiras garimpadas nos escombros do Museu Nacional.

De sentidos e significados – Por Pedro Varoni

Os violões estão dispostos no centro do palco. A plateia aguarda em confortáveis poltronas. Há uma leve ansiedade no ar, para muitos o primeiro show presencial desde o início da pandemia. Uma voz anuncia o artista. A figura magra, longilínea, já a caminho da maturidade, conservando o vigor na voz e nos gestos, ocupa o centro do espaço. Paulinho Moska vem de chapéu e roupas pretas. É recebido com aplausos calorosos. Ele vai passar por uma transformação ao longo do espetáculo. Para além da qualidade técnica no violão e no canto, há um estado de arte, substância sob a estrutura, que será revelada aos poucos.

Uma rede de afeto se instala, entre causos e canções, jogo de luz, palco e plateia, a prosódia de cidadão do mundo, carioca, latino-americano, mineiridades… A primeira história   conduzirá o sentido que não é a mesma coisa de significado, como lembra por duas vezes o artista. Diz respeito aos violões. Ficamos sabendo que foram construídos por Davi Lopes, um luthier-bombeiro, “desses que apagam fogo nos incêndios”, subtenente do Corpo de Bombeiros do Rio de Janeiro, a quem o show é dedicado. Ele recolhe, sempre que possível, a madeira sob os escombros dos incêndios. A terceira vida: de árvore a violão.

Os dois companheiros de palco foram construídos por Davi Lopes com matéria prima dos escombros do incêndio do Museu Nacional no Rio de Janeiro. Nada mais simbólico e real, a materialidade do instrumento e a performance de Moska como espaço de resistência aos trágicos acontecimentos do Brasil contemporâneo. Podemos sentir a maciez dos instrumentos nos dedos ágeis de Paulinho, a mão direita de verve roqueira, mostrando as infinitas possibilidades quando violeiro e violão se tornam um só e o complemento é a voz no alinhavo das canções: quem sabe isso quer dizer amor, uma homenagem à Martinália e músicas compostas durante a pandemia. Outras mais conhecidas para cantarmos juntos, A Seta e o Alvo e Último Dia.

Há um segundo tesouro arqueológico no bis.  A família de Pixinguinha encontrou partituras inéditas e coube a Paulinho Moska colocar letra em uma delas. Foi cantada à capela, versos de um sujeito ultrarromântico que se revela o fingidor da dor que deveras sente. Paulinho relembra também um acontecimento há 25 anos no mesmo teatro em que estamos, no Sesc em São Carlos. O encontro entre ele, Zeca Baleiro, Lenine, Chico Cézar e Marcos Suzano, artistas jovens, em início de carreira, reunidos por iniciativa da produtora cultural Fátima Camargo. Uma espécie de ponto de insurgência de renovação na música brasileira no final do século passado, o mesmo que viu nascer a genialidade de Pixinguinha.

De Pixinguinha a Cazuza, nesse caso uma letra encontrada após a sua morte e musicada por Jorge Israel, Blues do Ano 2.000: “se até o ano 2.000 o mundo não se acabar e eu estiver vivo na rua ou num bar, eu vou pra sempre te esperar”.  Nem precisou pedir. A Metamorfose Ambulante , de Raul é um recado final, o devir e a capacidade de renascer das cinzas. Há tanto sentido na juventude da brisa na noite de abril enquanto caminhamos na volta para casa, seu nome é esperança, melhor não buscar o significado.

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Pedro Varoni é jornalista, natural de Muzambinho-MG, trabalhou por mais de 25 anos nas afiliadas da Globo no interior de Minas, São Paulo e Aracaju. Foi editor do Observatório da Imprensa. É professor do Departamento de Letras da Universidade Federal de São Carlos. Autor de “A voz que canta na Voz que fala- poética e política na trajetória de Gilberto Gil.” (Ateliê) e “Revista Piaui: acontecimento no arquivo de brasilidade.” (Edunit). É pesquisador do Labor- Laboratório de estudos do discurso da UFSCar.

Contatos: e-mail: pedro.varoni@hotmail.com  pedrovaroni@ufscar.br   (16) 98124-9145