2020: O ano da saudade do meu amigo Cleber Rocha

Cleber deixou saudade!

Lembro que era um Domingo de Ramos e eu, a Patrícia e a Maria Antonia, minha filha, estávamos tentando observar a procissão do Santíssimo Sacramento devido ao início da Semana Santa. Como as igrejas estavam fechadas por conta da pandemia de COVID-19 ficamos na frente de casa e foi neste momento que a triste notícia chegou.

O Richard, meu vizinho, um dos irmãos do Cleber nos contou que ele havia falecido. Naquele momento minhas pernas ficaram moles e eu não sabia o que dizer. A primeira reação foi a negação, achar que era uma mentira, como isso poderia ser verdade? O meu simpático vizinho, aquele que eu cumprimentava todo dia, que me divertia com piadas e contava histórias da suas viagens pelas estradas da vida tinha ido embora. Como isso poderia ser? Pois é, o Cleber se foi de uma maneira que deixou um vazio profundo entre todos nós que tivemos a sorte de conhecer a sua pessoa.

No ano da pandemia, uma pessoa tão próxima vai embora e o sentimento que nos infringiu foi a incredulidade e um misto de saudade e tristeza.

O Cleber era um rapaz marcante. Falava alto, mexia seus braços, era engraçado, divertido, era um cidadão que com ele não tinha tempo ruim. Se você parasse para falar com o mesmo ficaria um tempão ouvindo histórias, os causos que tanto contava. Cleber era conhecido em toda a São Carlos, tanto que a notícia do seu falecimento comoveu uma cidade, porque um filho tão querido estava se despedindo tão cedo de uma maneira tão impossível de se compreender.

Por qualquer comércio que você passava naquele período o assunto era o mesmo: a saudade dele, de como ele chegava nos locais, deixava as mercadorias que o pessoal trazia de São Paulo, de como era expansivo e como gostava de conversar.

Eu lembro de um episódio muito engraçado. Certa vez, era um domingo, o Cleber parou seu utilitário em cima da calçada, em frente ao barracão, do lado de casa. Eram por volta das 6h30 e eu sai de casa para levar o Zé (meu cachorro) para dar uma volta. O Cleber desceu do carro e estava ouvindo uma música sertaneja daquelas chorosas pelo rádio. Ele me disse “bom dia”, eu respondi, depois ele me olhou e falou: “Deus me livre, essa música tá muito chifruda! Vamos trocar isso aqui!”

Logo cedo eu desci a Totó Leite dando risada, porque até ele se incomodou com a música que ouvia e posso dizer que o Cleber era justamente assim: sempre tinha uma brincadeira e a gente ria muito por causa dessas coisas, perdi as contas das vezes que isso aconteceu.

Uma vez, ele desceu de manhã do seu carro, abriu o barracão e esqueceu a porta aberta, eu passei, fechei a porta e entrei. Quando encostei o portão ele saiu na rua me falou: “Renato do céu, quem fechou essa porta aqui, você tá saindo né?” Eu fiz com a cabeça que tava saindo e não contei que tinha fechado a porta, ele na hora: “Deve ter algum fantasma aqui, só pode!” Na mesma hora comecei a gargalhar e disse que tinha fechado a porta e que estava voltando. Ele só respondeu assim: “Deus me livre! Fiquei com medo!”

Um dia, ele me disse da satisfação de levar seu sobrinho ao Allianz Park, embora fosse são-paulino, até onde sei, o Cleber sabia que eu sou palmeirense fanático e veio me descrever o que viu. Ficou falando com aquele seu jeito expansivo de como era bonito o novo estádio do Palmeiras e disse que iria voltar outras vezes.

Gente, não teve uma pessoa com quem eu conversei ao longo desses meses que não tivesse uma história, um agrado, um carinho para contar do Cleber. O jeitão amigo dele era infalível para cativar as pessoas e praticamente todos sempre se recordam deste amigo com uma saudade indescritível.

Acho que é assim que tem quer ser, sabemos que a tristeza por sua precoce partida nunca vai acabar, mas é nosso dever manter sua memória alegre e feliz como um norte para os dias tão tristes que vivemos atualmente.

Aqui fica um registro que os irmãos e pais do Cleber não esmoreceram e mantiveram viva a chama do trabalho que ele fazia, ao lado da família, na área dos hortifrútis em São Carlos e, convenhamos, essa foi a melhor homenagem que nosso amigo poderia receber deste plano.

O Cleber hoje está do outro lado do caminho, mas certamente nos acompanha diariamente, todo dia que saio pela manhã e olho para o meu lado direito, onde está o barracão, parece que o vejo entrando e saindo e me falando bom dia, dá a impressão de que nada mudou.

Neste último dia de 2020 acho que era fundamental lembrar de sua memória e do seu legado de alegria e dizer aos familiares que estamos todos juntos lembrando do Cleber e dos seus melhores momentos em sua passagem por este planeta. Feliz 2021, meu amigo!

Renato Chimirri