
Naquela manhã cinzenta de abril de 2025, o delegado Antunes acendeu seu cachimbo como quem reacende memórias antigas. Recebera uma denúncia anônima — uma casa abandonada na Vila Marina, São Carlos, exalava um odor pútrido que, segundo vizinhos, era “mais forte que o inferno depois da chuva”. O delegado, há décadas na ativa, achava já ter visto de tudo. Estava enganado.
A casa em questão tinha janelas lacradas por jornais de 2012 e uma porta trancada com uma corrente de bicicleta. Bastou um chute seco para que Antunes e sua equipe entrassem. Logo na cozinha, o cheiro os atingiu como uma bofetada podre. A geladeira, estranhamente limpa por fora, tremia levemente. Quando aberta, revelou o que viria a se tornar o caso mais bizarro de sua carreira: sete corações humanos, cada um envolto em plástico-filme, cuidadosamente etiquetados com nomes e datas, como se fossem cortes nobres de carne.
“Alguém está matando por afeto”, murmurou Antunes.
As investigações avançaram com lentidão sobrenatural. Não havia digitais, nem câmeras, nem testemunhas. Apenas um nome surgiu num dos rótulos: Celina D. 04/03/25. Uma jovem desaparecida há pouco mais de um mês. Exames confirmaram: o coração era dela.
Na madrugada seguinte, Antunes sonhou com o passado. Estava de volta a 1998, em um porão escuro, onde prendera um homem apelidado pela imprensa de O Homem Sem Coração — um serial killer que removia os órgãos das vítimas, mas nunca os guardava. Quando o prendeu, o criminoso riu e disse: “Coração só pesa. Mas meu filho… ah, esse sim tem o dom da nostalgia.”
Antunes acordou suando. Filho?
Consultando arquivos enterrados no esquecimento da burocracia, o delegado descobriu que o Homem Sem Coração chamava-se Cláudio M., condenado a 30 anos e libertado em 2011 por bom comportamento. Morreu em 2013, debilitado pelo mal de Parkinson. Antes disso, teve um filho com uma enfermeira do presídio. O menino, Lucas, nascido em 2000, fora criado por parentes em Araraquara. Sem ficha criminal. Sumido desde 2022.
Seguindo os rastros de Lucas, Antunes chegou a um prédio abandonado na antiga Estação da Fepasa, onde encontrou dezenas de cadernos recheados de desenhos: corações voadores, geladeiras sorrindo, e uma figura paterna — sem rosto, mas com a frase “Ele era vazio. Eu sou inteiro”.
Numa operação silenciosa, Antunes armou um cerco na mesma Vila Marina, após notar que a casa dos corações voltara a ter sinais de energia elétrica. Por volta das três da manhã, a figura de um jovem de cabelos desgrenhados e jaleco manchado de sangue foi vista entrando com um saco térmico.
A prisão foi rápida, mas o interrogatório… não.
Lucas, calmo, disse com um sorriso:
— Meu pai queria apagar. Eu queria preservar. Por isso guardo. Congelo. O amor precisa de frio pra durar.
Antunes estremeceu. A voz dele lembrava demais a do pai. E então, com um brilho perturbador nos olhos, Lucas completou:
— E agora, falta só um coração. Um coração que me negou por décadas. Um que prendeu meu pai.
— Você fala de mim?
— Não, delegado… falo do meu próprio. O último será o meu. O ciclo se fecha com amor.
Lucas tentou arrancar o próprio peito com um bisturi escondido no cós da calça. Foi impedido a tempo.
O caso foi arquivado como “homicídios em série com motivação psicopatológica de herança simbólica”. Os jornais o chamaram de O Colecionador de Corações.
Antunes, de volta ao seu escritório, observava o entardecer pela janela. No fundo da gaveta, retirou a velha ficha do Homem Sem Coração. Em letras trêmulas, escreveu:
“A fruta caiu da árvore. Mas o gosto… o gosto ficou ainda mais amargo.”
E por um instante, o delegado jurou ouvir a geladeira da sala de provas… pulsar.
Esta é uma obra de ficção, um conto. Não é real.








