A benzedeira que rezou por muita gente em São Carlos

Sancorso (marido) e Dona Elisa, benzedeira famosa

Dizem que a fé move montanhas, cura as pessoas e rompe qualquer situação ruim, isso é o que se fala de quem acredita.

Havia na Vila Isabel uma senhora piedosa nascida em 1910, descendente de italianos e portugueses e que tinha o nome de Elisa.

Elisa morou em várias fazendas e depois se casou com um italiano descendente de uma família da Calábria, na velha bota.

Durante um tempo, trabalhou na lavoura de café e teve vários filhos, fator comum na época. Depois disso, anos 50, veio morar no perímetro urbano de São Carlos. A família se estabeleceu na região da Vila Irene, Vila Isabel e partir daí conheceu e desenvolveu uma amizade com o Padre Antonio Tombolato, conhecido e marcante religioso da cidade.

Dona Elisa frequentava suas missas e por muito tempo ajudou Padre Antonio e a paróquia, assim como milhares de pessoas.

Em sua casa, eram sempre realizados terços em datas festivas, arraiás juninos e demais festividades, o mastro dos santos do mês de junho era uma tradição que sempre se fazia presente naquela casa.

Contudo, ela tinha um dom: Dona Elisa era uma benzedeira de mão cheia. Muitas crianças com quebrante, gente com dores de cabeça, de corpo, de alma, pessoas que se julgavam perturbadas a procuravam.

Ela não tinha sossego. Era de segunda a domingo pessoas batendo à sua porta e procurando sua fé e Dona Elisa nunca negou um benzimento. Cada atendimento demorava pelo menos 30 minutos. A benzedeira costuma dizer que o único que ela não conseguia ter concentração para benzer era o seu neto, pois ele a imitava durante todo o ritual e Dona Elisa achava engraçado e acabava rindo.

Não sabemos se todos os benzimentos deram certo, mas era inquestionável que Dona Elisa fazia tudo com muita fé, resgatando uma tradição brasileira de muitos séculos, pois dos anos 50 até o fim dos anos 80 os serviços de saúde eram (ainda) piores do que aqueles que temos hoje e muitas pessoas tinham só as benzedeiras para recorrer.

Dona Elisa tinha apenas seu conhecimento popular e sua fé, mas foram inúmeras pessoas que passavam por seus bancos em sua casa, que beberam de suas orações. Muitos se diziam curados.

Uma vez, um senhor que tinha perdido a esposa procurou Dona Elisa. Ele dizia que queria se comunicar com a falecida mulher e que a benzedeira poderia realizar isso. Na hora, Dona Elisa afirmou que não tinha esse dom, mas que se o rapaz permitisse o benzeria e pediria por sua esposa e também por ele e o restante da família. O homem foi benzido e saiu calmo de sua casa dizendo que a dor da perda permanecia, mas que o coração estava mais confortado. Dona Elisa suspirou e se sentiu um pouco mais feliz.

Esses atendimentos lhe consumiam muito tempo, no seu quarto existia um altar com muitos santos e santas. Ali, ela depositava suas orações e assim passou sua fé para outras gerações. É fato que hoje não temos mais benzedeiras como antigamente, porém também é possível notar que elas fazem falta de alguma forma, afinal promoviam o conforto espiritual de muita gente, coisa que atualmente, nesta sociedade tão cheia de barreiras, poucas pessoas se dispõe a propiciar. Dona Elisa, que fique bem claro, nunca ganhou nada com isso e também não pedia nenhum centavo por cada atendimento.

Ela faleceu em 1º de dezembro de 1987. Dona Elisa era a minha avó.

Renato Chimirri