A Casa Maldita da Rua Manoel de Mattos

No tranquilo bairro do Jardim Brasil, em São Carlos, havia uma casa que ninguém olhava por muito tempo. Não era pelo seu aspecto decadente—paredes descascadas, janelas quebradas, um jardim tomado por ervas daninhas—mas pelo que acontecia quando alguém se atrevia a se aproximar.

Diziam que a casa respirava.

O primeiro a perceber foi o carteiro, um homem pragmático que não acreditava em fantasmas. Ao deslizar uma encomenda na caixa de correio, ele jurou ter ouvido um suspiro vindo de dentro da casa—um sopro úmido, como se algo enorme estivesse dormindo lá dentro. No dia seguinte, ele foi encontrado em frente ao portão, os olhos arregalados, repetindo em voz baixa: “Ela me viu.” Nunca mais trabalhou como carteiro.

Depois foi a vez das crianças. Algumas juram que, em noites de lua cheia, as sombras dentro da casa não batiam na direção certa. Elas se torciam, se alongavam, como se tentassem escapar pelas frestas. Uma menina, mais corajosa que as outras, disse ter visto um vulto no sótão—não um homem, não um animal, mas algo entre as formas, como se estivesse tentando se lembrar de como ser humano. No dia seguinte, ela desapareceu. Seus pais procuraram por toda a cidade, mas só encontraram seu sapato no meio da rua, cheio de terra, como se ela tivesse sido arrastada para baixo.

Os moradores mais antigos sabiam das histórias. Diziam que a casa não tinha sempre estado ali—que um dia, há décadas, ela simplesmente apareceu, como um dente podre crescendo no meio da rua. O primeiro dono, um homem de nome esquecido, enforcou-se no corredor após escrever em todas as paredes: “Ela está me comendo por dentro.” Desde então, quem se mudava para lá sumia ou enlouquecia.

O último a tentar foi um estudante da UFSCar, descrente das lendas urbanas. Ele alugou a casa por um preço irrisório, achando que era só superstição. Na primeira noite, ele ouviu passos no corredor. Na segunda, sentiu algo escorrendo pelas paredes—não água, mas uma substância espessa e escura, como sangue velho. Na terceira noite, ele ligou para um amigo, gritando que “tem algo no porão, e ela sabe o meu nome!”

Quando a polícia chegou, a porta estava aberta. Dentro, não havia móveis, não havia pertences—apenas uma pilha de roupas no chão, como se o corpo do estudante tivesse simplesmente se dissolvido. E no meio da sala, escrito a carvão na parede, uma única palavra:

“VENHA.”

A casa ainda está lá, na Rua Manoel de Mattos. Às vezes, os vizinhos juram ver luzes se acendendo sozinhas à noite. Outras vezes, ouvem risadas vindas de dentro—mas nunca há ninguém lá.

E se você passar em frente e sentir um frio na nuca, não olhe para trás.

Ela não gosta de ser ignorada.

ESTE CONTO REPRESENTA FICÇÃO, PORTANTO NÃO TEM NADA DE REAL.