A escritora Patrícia Volpe faz uma reflexão sobre os incêndios e suas consequências

Os bichos, que amanheceram vivos, em preto e branco passam a sonhar, com aqueles que gritando, se perdem no ar.

É aterrador, não é? Ver as pequenas falhas de todos nós acumularem-se, ganharem vida e encostar ao nosso lado vestido de incêndio para o jantar…

Respiramos fogo, engolimos o vento quente que ainda vamos devolver em lágrimas. O céu pesado é um espelho onde a terra se vê queimando por dentro, uma febre que não cessa.

O chão que era mãe, despedindo-se de raízes como quem aquece um amigo em prantos, agora sem pele, está exposta como ferida aberta. Os rios que corriam livres agora levam cinzas, o que antes girava, agora tropeça, e o ontem já não sabe do amanhã.

Na cidade, a fumaça dança entre prédios e pulmões cansados. Há uma tosse feita de sombra que assombra as certezas. Somos todos doentes do mesmo mal invisível, tudo se desarruma, enquanto o homem conta moedas que já não compram o verde.

Caminhamos sem chão, sem teto que nos proteja. Ainda teremos direito às estações, à promessa de renovação, ou estamos condenados a um eterno verão de ilusão? O vento não sabe mais o caminho, as nuvens esquecem de chorar.

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Por Patrícia Volpe