A estrada das almas entre São Carlos e Ribeirão Bonito

Era uma noite abafada na SP-215. O céu, fechado como a tampa de um caixão, prometia tempestade. Jorge, caminhoneiro experiente e homem de poucas palavras, manobrava seu velho Scania carregado de sacos de milho rumo a Ribeirão Bonito. Os faróis rasgavam a escuridão, mas a estrada parecia mais vazia do que de costume, como se tivesse sido abandonada por todos os seres vivos. Nenhum carro à vista, nenhuma alma viva à beira da pista. Só o som do motor e a respiração dele, compassada, desconfiada.

Então a chuva caiu.

Não foi uma chuva comum. Foi como se o céu estivesse despejando o conteúdo de um rio inteiro. O vidro embaçou, os limpadores não davam conta, e a estrada desapareceu sob um véu espesso de água. Jorge, cauteloso, decidiu encostar o caminhão. Foi quando viu, à direita, uma estradinha de pedras britas, meio escondida por arbustos molhados. “Melhor do que parar no meio da rodovia”, pensou.

Engrenou, virou o volante e entrou. O barulho das pedras sob os pneus soava como dentes quebrando. A estradinha serpenteava entre árvores muito altas, escuras e silenciosas demais. A chuva parecia ter parado ali. Mas não era calma — era silêncio tenso, de cemitério. Ele desligou o motor. Só o som dos pingos grossos caindo no metal. Pegou a lanterna. Acendeu. Nada adiante. Nenhum portão. Nenhuma casa. Só a estradinha desaparecendo no breu.

Pensou em dar a ré. Mas algo o impediu. Uma voz.

— Boa noite, caminhoneiro.

Jorge congelou. A voz não vinha de fora. Vinha de dentro da cabine. Mas ele estava sozinho.

Virou lentamente. No banco do carona, agora sentado com as mãos sobre os joelhos, havia um homem. Ou algo parecido com um homem. Usava terno preto. Estava molhado, mas sorria. Um sorriso largo demais. Os olhos eram fundos, como buracos cavados na terra há muito tempo.

— Ficou perdido, foi? — disse a entidade, a voz arranhando como unha em pedra.

— Quem é você? — Jorge perguntou, engasgando com a própria saliva.

— Alguém que esperava há muito tempo. Almas de caminhoneiros são pesadas. Vêm cheias de poeira, promessas e coisas não ditas. Eu gosto disso.

Jorge tentou abrir a porta, mas ela não cedia. Travada. A chuva recomeçou lá fora, mas dentro da cabine fazia calor.

— Eu só queria me abrigar da chuva, disse Jorge, tremendo.

— E veio parar na Estrada das Almas. — o homem inclinou a cabeça, curioso como um corvo. — Ninguém entra aqui sem ser convidado.

Jorge tentava ligar o caminhão. A chave girava, mas o motor não fazia barulho. Tudo estava mudo. Até mesmo seu coração parecia bater em outro lugar.

— Se quiser sair, tem que trocar. Sua alma pela liberdade. — disse a criatura, agora sorrindo com dentes pontiagudos, como vidro quebrado.

O painel do caminhão começou a piscar. Os ponteiros giravam loucamente. O rádio ligou sozinho. Uma música antiga, lenta, de valsa, tocava em distorção. Jorge apertou os olhos. Estava sonhando? Morto?

— E se eu não aceitar? — desafiou, sentindo a raiva tomando o lugar do medo.

O homem suspirou, desapontado.

— Ah… sempre tem os que resistem. Mas veja, meu caro Jorge… — e apontou para fora.

Do lado de fora, dezenas — talvez centenas — de caminhões estavam encostados no acostamento da estradinha de brita. Todos silenciosos. Todos enferrujados. E todos com alguém dentro.

— São como você. Vieram se abrigar da chuva. Não quiseram trocar. Agora são parte da estrada.

Jorge olhou para suas mãos. Elas estavam se esfarelando como terra seca. Seu rosto no retrovisor já não era o mesmo — os olhos estavam sumindo, e ele sentia um vazio crescendo no peito, como se a alma estivesse sendo sugada para fora, bem devagar.

— Aceite, sussurrou o homem. — É só um contrato. Você me dá o que sobra de si. E eu te deixo ir. Mas nunca será o mesmo.

Jorge não respondeu. Lá fora, a chuva cessava. O caminhão voltou a funcionar sozinho. As luzes acenderam. A estrada de brita estava limpa, como se nada tivesse acontecido.

Na manhã seguinte, um policial rodoviário encontrou o Scania estacionado no acostamento da SP-215, motor desligado, sem nenhuma carga.

Dentro da cabine, só havia uma coisa.

Um terno preto. Encharcado. E uma nota escrita à mão:

“Nunca confie em estradas que não aparecem no mapa.”

E desde aquela noite, dizem que, quando a chuva cai forte entre São Carlos e Ribeirão Bonito, às vezes aparece uma entrada de brita no meio da escuridão.

Quem entra… nem sempre volta.

Conto baseado numa história contada por caminhoneiros da região.