A grama do vizinho

Fiquem em casa/Foto: Pixabay

Por Glauco Keller Villas Boas

Entre todos os filmes do cineasta francês Louis Malle, o que mais me tocou sempre foi uma obra chamada Au Revoir Les Enfants (FRA, 1987), Adeus meninos. O filme se passa em Paris, no inverno de 1944. A cidade havia sido tomada pelos nazistas e, ao abrir as janelas de suas casas, os franceses se deparavam com a Gestapo, a temida polícia nazista. Nesse contexto conturbado, um padre abriga em sua paróquia crianças judias e tenta salvar suas vidas. O enredo, embora supostamente simples, é terno, profundo e dialoga com os tempos atuais. São muitas as coincidências. Movimentos de extrema-direita, perseguições, censuras, ideologias opostas, mas, em especial, por conta do isolamento social a que todo o planeta está se impondo, a criação de rotinas e a manutenção da vida em momentos de crise.

Quando estudamos a Segunda Grande Guerra nos livros e apostilas escolares, destacamos nomes como Hitler, Churchill, Stalin ou Truman e datas e anos como o Dia-D ou o período oficial da Guerra (1939-1945). Esquecemo-nos, contudo – e essa é uma grande crítica que faço à disciplina história em qualquer escola -, de nos lembrar e de estudar os hábitos, as músicas, a cultura, as roupas, as comidas e a rotina da gente que viveu aquele momento histórico tão importante para o planeta. Se a guerra, oficialmente, durou seis anos, o que fizeram as pessoas de suas vidas? Ficaram todo esse período enclausuradas em suas casas? Saíram? As crianças deixaram de ir à escola? Os mercados funcionaram? Havia comida? O que as pessoas comiam? Elas ouviam música? Sobre o que conversaram durante esse tempo todo?

Os quinze dias de quarentena a que a sociedade brasileira está sendo imposta tem permitido que o Brasil passe por um processo de purificação, numa escala infinitamente inferior, ao que a Europa passou durante as duas grandes guerras que viveu. Tivemos nossos hábitos, rotina e liberdade cerceados em prol de um bem maior: proteger a vida daqueles que amamos e evitar um caos social ainda aterrorizante. A quarentena nos tem forçado a redescobrir práticas, a alterar modos de vida e a inventar maneiras de nos distrair e continuar vivendo. Em um mundo globalizado, claro, é óbvio que a internet, o streaming de filmes e séries e as TVs trazem para o cidadão informação e entretenimento sem qualquer esforço físico ou mental, diferentemente, de um período belicoso. Tudo isso, entretanto, se banaliza na medida em que queremos o que não temos.

Machado de Assis, em seu conto, “A igreja do diabo” propõe a discussão do tema a partir de um preceito filosófico popularizado por Lacan: “cuidado com o que você deseja, pois você não vai mais querer depois de conseguir”. Deus, em sua igreja, pede que as pessoas sejam bondosas, solidárias e ajudem o próximo. Esperto, o diabo percebe que, à noite, escondidas do Senhor, as pessoas mentiam, roubavam matavam e enganavam e tem, então, a ideia de fundar a sua própria igreja. Sucesso imediato, a igreja do diabo permitia que o ser humano fizesse tudo aquilo que a igreja de Deus proibia: roubar, assassinar ou mentir. Contudo, com o passar do tempo, o diabo percebe que, à noite, escondidas de seu olhar, as pessoas se ajudavam, se amavam, se cuidavam e eram fraternas e solidárias. Que lição tiramos disso? A eterna contradição humana eternizada pelo provérbio “a grama do vizinho é sempre mais verde”.

O momento atual exige uma capacidade de nos contentarmos com o presente, ainda que tenhamos ansiedade e medo do futuro. A grama de nossas casas é tudo o que temos; nossa sala, cozinha, banheiro e quarto representam fisicamente a metáfora de conseguir adaptar nossa rotina aos dias atuais. Os europeus e vários povos nas duas grandes guerras e em outros momentos fizeram isso e passaram por um processo de purificação que a classe média brasileira, de maneira geral, não passou, mas que, milhares de pessoas no Brasil passam diariamente: vivem confinadas em áreas minúsculas, sem perspectiva de futuro e desprovidas de bens materiais (algo que não acontece com os recém-isolados), esperando um futuro incerto e inexorável.

Viver a rotina pode ser mais fácil do que mudá-la, mas, assim que o isolamento acabar haverá comentários, postagens e lembranças nostálgicas deste período que só queremos que acabe porque o estamos vivendo. O preço do isolamento é ínfimo frente aos benefícios sanitários e sociais que ele pode causar, mas ele nos parece muito caro por ter de ser agora. De qualquer maneira, precisamos racionalizar as práticas e rotinas e ouvir a ciência ficando em nossas casas. Precisamos aprender a pagar com alguns dias do presente para que, no futuro, possamos nos lembrar com saudade do passado.

 

  • O autor é professor e apresenta os Programas Alternativa A e Onda Esportiva.

 

 

ALTERNATIVA A

ONDA ESPORTIVA  

Imagem de Alexey Hulsov por Pixabay