
Há uma história que poucos moradores antigos de São Carlos gostam de contar.
Não porque tenham medo de parecer supersticiosos.
Mas porque alguns juram ter visto a casa.
E todos a descrevem exatamente da mesma maneira.
Ela não aparece no mapa.
Não recebe correspondência.
Não possui número.
Mesmo assim, em certas madrugadas de inverno, surge no fim de uma rua qualquer da cidade.
Às vezes perto da Vila Prado.
Outras vezes nos altos da Vila Nery.
Há quem diga que ela já apareceu no Santa Felícia, na Redenção e até próximo ao Kartódromo.
A casa simplesmente escolhe onde ficará.
Na madrugada de uma sexta-feira, Vinícius voltava do trabalho de motocicleta.
Eram quase três horas.
A cidade estava mergulhada numa neblina espessa.
Ele conhecia aquele trajeto de olhos fechados.
Mas, ao dobrar uma esquina, percebeu uma rua que nunca tinha visto.
Era estreita.
Sem iluminação.
No final dela havia apenas uma casa antiga.
Toda de madeira.
Uma única luz permanecia acesa na varanda.
Seu celular perdeu o sinal.
A moto desligou.
Como se alguém tivesse retirado a chave da ignição.
Ele tentou dar partida.
Nada.
Foi então que ouviu.
Uma voz de mulher.
Muito baixa.
— Entre… você deve estar com frio…
Vinícius olhou ao redor.
Não havia ninguém.
A voz vinha da casa.
A porta estava aberta.
Ele sabia que deveria ir embora.
Mas algo parecia puxá-lo.
Deixou o capacete na calçada e caminhou lentamente.
Quanto mais se aproximava, mais sentia um cheiro de café recém-passado.
Misturado ao perfume de flores já murchas.
Ao cruzar a porta, encontrou uma sala impecavelmente limpa.
Relógios antigos.
Fotografias em preto e branco.
Móveis de madeira escura.
No centro havia uma mesa posta para quatro pessoas.
Mas só existiam três cadeiras.
A quarta parecia ter sido arrancada dali.
Sobre a toalha branca havia um prato vazio.
E um bilhete.
“Estávamos esperando você.”
O coração acelerou.
Tentou sair.
A porta havia desaparecido.
No lugar existia apenas uma parede.
O relógio da sala começou a tocar.
Três badaladas.
Uma.
Após a outra.
Então todas as fotografias penduradas começaram a mudar.
Os rostos desapareceram.
E, lentamente…
Passaram a mostrar apenas ele.
Em pé.
Naquela mesma sala.
Mas envelhecendo.
A cada segundo.
Os cabelos ficando brancos.
A pele enrugada.
Os olhos afundando.
Até que, na última fotografia…
Restava apenas um caixão fechado.
Com seu nome gravado na tampa.
Vinícius gritou.
As luzes apagaram.
E ouviu passos.
Muitos passos.
Como se dezenas de pessoas andassem ao redor da mesa.
Só que ninguém respirava.
Nenhum sapato fazia barulho.
Eram passos secos.
Pesados.
Lentos.
Algo tocou seu ombro.
Gelado.
Quando virou…
Não havia rosto.
Apenas uma sombra com a forma de uma pessoa.
Depois outra.
E outra.
Até que a sala inteira ficou tomada por figuras escuras.
Todas olhando para ele.
Sem olhos.
Sem boca.
Sem expressão.
Apenas esperando.
Uma cadeira deslizou sozinha pelo chão.
Parando diante da mesa.
A única que faltava.
A voz voltou.
Agora atrás dele.
— Agora a família está completa.
Na manhã seguinte, um agricultor encontrou uma motocicleta caída perto de um terreno vazio.
O capacete estava ao lado.
As chaves permaneciam na ignição.
Vinícius nunca foi encontrado.
A polícia procurou por semanas.
Nenhuma pista.
Nenhum vestígio.
Nada.
O curioso é que moradores da região afirmaram nunca ter existido qualquer casa naquele local.
Era apenas um terreno coberto por mato.
Mas, anos depois, sempre que a neblina cobre São Carlos nas madrugadas mais frias, algumas pessoas dizem enxergar, por poucos minutos, uma velha casa de madeira no fim de uma rua silenciosa.
E, através da janela iluminada, um homem permanece sentado à mesa.
Imóvel.
Como se esperasse a chegada do próximo convidado.
Porque toda casa precisa de uma família.
E aquela ainda tem lugares vazios.








