
Eu acreditei.
Acreditei que a reportagem que escrevi poderia mudar alguma coisa. Que minhas palavras, somadas à corrente de solidariedade que se formou, seriam suficientes para ajudar a salvar uma vida. A vida dela.
Ela tinha só 27 anos. Jovem demais pra tanto sofrimento. Enfrentava um colangiocarcinoma — um nome difícil para um câncer ainda mais difícil. Um tumor raro, agressivo, silencioso, que costuma aparecer em pessoas entre 50 e 70 anos, mas que, por alguma razão que nunca vamos entender, escolheu o corpo dela tão cedo.
Eu contei a história dela com todo o cuidado que pude. Divulguei a campanha, pedi ajuda, juntei forças com amigos, com outros veículos de imprensa, com quem quisesse estender a mão. E, de verdade, acreditei que dar voz a ela, amplificar seu pedido, seria o bastante para criar um desfecho diferente. Porque é isso que me move quando escrevo: a esperança de que uma boa reportagem possa fazer mais do que apenas informar.
Mas ontem, 25, chegou a notícia que eu temia — mas que, no fundo, ainda achava que poderia não vir. Ela se foi.
E eu fiquei com esse vazio. Um silêncio que não cabe em texto nenhum. Fiquei encarando as palavras que já escrevi e me perguntando se elas, mesmo com boa intenção, bastaram de verdade. Porque a gente, como repórter, se envolve. Não tem como não se envolver. A gente ouve, olha nos olhos, sente junto. E quando perde, perde também um pouco da fé no poder que temos — ou achamos que temos — de transformar histórias com o que escrevemos.
É duro. Muito duro. Porque sempre que publico algo assim, eu acredito. Acredito que vai dar certo. Que vai chegar até alguém que possa ajudar. Que vai virar milagre. Mas dessa vez… não deu.
E hoje eu estou triste. Triste como repórter, como ser humano. Triste porque queria poder escrever um final diferente. Mas aprendi — de novo — que nem toda história termina como a gente gostaria. Ainda assim, sigo. Com o peito apertado, mas sigo. Porque contar histórias é também isso: carregar as que não conseguimos salvar, e continuar escrevendo pelas que ainda têm chance.
Essa dor vai comigo. E a memória dela também. Vai em paz, P.
Renato Chimirri







