
Clara saiu do trabalho, naquele fim de dia, arrastando os pés cansados pelo asfalto úmido. O vento cortante parecia ecoar a dor que carregava no peito há meses. Desde que Pedro partira, tudo parecia mais pesado, mais escuro. Seu filho, tão cheio de vida, tão jovem, havia sido levado por uma doença implacável. E agora, Clara sentia-se como uma sombra da mulher que um dia fora.
Enquanto esperava o ônibus, encostou-se ao abrigo de vidro, olhando distraidamente para o movimento da cidade. As luzes dos carros passavam como vagalumes, e o barulho do trânsito parecia distante, abafado pelo turbilhão de pensamentos que a atormentavam. “Por quê?”, perguntava-se, como fizera tantas vezes. “Por que ele, Deus? Por que o meu filho?”
Fechou os olhos por um instante, tentando afastar as lágrimas que insistiam em escorrer. Foi então que sentiu uma presença suave ao seu lado. Abriu os olhos e viu uma mulher sentada no banco do abrigo. Não havia notado sua chegada. Ela era alta, de cabelos longos e claros, e vestia um casaco branco que parecia brilhar levemente, mesmo na penumbra da noite. Seus olhos eram profundos, cheios de uma serenidade que Clara não conseguia explicar.
— Boa noite — disse a mulher, com uma voz que soava como uma melodia suave.
Clara limpou as lágrimas apressadamente e murmurou um “boa noite” de volta, sem muita convicção.
— Você parece carregar um peso grande — continuou a mulher, fixando os olhos em Clara com uma expressão de compaixão infinita.
Clara hesitou, mas algo naquela presença a fez sentir-se segura, como se pudesse confiar.
— Perdi meu filho — confessou, a voz trêmula. — Ele era tudo para mim. Agora, não sei mais como seguir em frente.
A mulher inclinou a cabeça, como se compreendesse cada palavra não dita.
— O amor de um filho nunca se perde — disse ela, com uma calma que parecia transcender o tempo. — Ele está com você, sempre. E ele quer que você saiba que está bem, que ele te ama e que quer o seu bem.
Clara sentiu um arrepio percorrer sua espinha. As palavras da mulher ecoavam em seu coração como uma verdade que ela tanto desejava ouvir.
— Como você sabe disso? — perguntou, com um misto de esperança e incredulidade.
A mulher sorriu, um sorriso que iluminou o abrigo inteiro.
— Às vezes, os céus nos enviam mensagens através de quem menos esperamos — respondeu, sem explicar mais. — Ele pede que você mantenha a fé e a esperança. Que continue fazendo o bem, porque é através do amor que nos conectamos com aqueles que partiram.
Clara sentiu uma onda de calor envolver seu peito, como se o coração, antes tão pesado, estivesse sendo aliviado. As lágrimas voltaram, mas agora eram diferentes, como se carregassem um pouco da dor embora.
— Obrigada — sussurrou, sem saber ao certo o que mais dizer.
A mulher assentiu, como se entendesse que não eram necessárias mais palavras. Então, levantou-se, e Clara notou que o casaco branco parecia brilhar ainda mais intensamente.
— O ônibus está chegando — disse a mulher, apontando para a rua. — E lembre-se: ele está com você. Sempre.
Clara olhou para a rua e, de fato, o ônibus aproximava-se. Quando voltou a olhar para o banco, a mulher havia desaparecido. Olhou em volta, mas não havia sinal dela. O abrigo estava vazio, exceto por ela.
Entrou no ônibus com o coração mais leve. Pela primeira vez em meses, sentiu uma ponta de paz. E, enquanto o veículo seguia seu caminho, Clara olhou pela janela e sussurrou:
— Eu te amo, Pedro. E vou fazer o bem, por você.
E, em algum lugar além das estrelas, ela sabia que ele sorria.
Essa é uma obra de ficção.







