A médica que conheceu a morte de perto

Essa é uma obra de ficção

A chuva batia na janela de uma forma assustadora. Os pingos pareciam balas sendo disparadas contra um escudo de aço impenetrável, aquilo causava medo e a sensação de desconforto só terminava quando a intempérie acalmasse.

Carlota nunca gostava da chuva em São Carlos, era uma herança que tinha ganho de sua avó, outra medrosa convicta. As duas costumavam se esconder no quarto quando Carlota era uma bebê por causa de uma tempestade ou mesmo de uma ameaça apenas.

O fato é que aos 32 anos a menina que se escondia tinha se transformado numa mulher alta, forte e de opiniões sóbrias. Trabalhava no hospital há pouco mais de 5 anos e estava terminando sua residência médica, pois achava que o campo da saúde era composto de histórias fantásticas, apesar de uma grande aura de negativismo, pois nem sempre era possível salvar todos os pacientes.

Ainda mais para ela, que trabalhava na linha de frente do Pronto Socorro e recebia todo o tipo de paciente. Eram acidentados dos mais diversos, pernas, mãos, braços, costelas, clavículas e outros ossos do corpo quebrados, esfaqueados, vítimas de tiros e até aqueles que sofriam um acidente comum que se transformava numa grande tragédia.

Certa vez atendeu uma família que estava preocupada se a filha de 18 meses havia engolido uma moeda. A solução foi fazer um exame de imagem que foi, para variar, inconclusivo. O jeito encontrado era administrar um purgante e aguardar a natureza se manifestar. Depois de horas e de muitas manifestações nada tinha chegado como novidade.

Carlota concluiu que a menina não havia ingerido a moeda, mas deixou a expressa recomendação antes de liberar a família: “Se apresentar qualquer outro sintoma, volte aqui rapidamente!”

O dilema de ser médica para aquela mulher cheia de desejos era justamente saber se o diagnóstico dado era o correto, principalmente em casos onde não estava evidente o que o paciente poderia estar sentindo. Ela achava que a medicina que avançou tanto em determinadas áreas deveria ter uma “máquina do diagnóstico” onde a pessoa entrava e saía um papelzinho escrito: “Inflamação no joelho esquerdo!”

Numa semana, após atender três pessoas que tinham sido envolvidas num acidente entre uma moto, um carro e uma carreta, Carlota desandou a chorar depois que atendeu o motoqueiro que teve as duas pernas esmagadas pela carreta que invadiu sua faixa de rolamento. O homem precisou amputá-las, mas não resistiu ao pós-operatório e morreu. Quando entrou no quarto da UTI para verificar como o paciente estava, percebeu o diálogo da mulher do falecido: “E agora? Quem vai sustentar nossa filha de dois anos? Não falei para você não sair naquela chuva e esperar o tempo melhorar?”

Essas coisas cortam o coração de qualquer pessoa, as outras duas vítimas do acidente tiveram ferimentos, mas de ordem leve. Entretanto, Carlota, uma médica acostumada a ver os mortos tinha a maior ferida acidental aberta em sua alma. Quando via cenas aterradoras como aquelas, pensava em largar a medicina e fazer qualquer outra coisa, mas no outro dia estava novamente vestida de branco para mais uma batalha, era uma guerra interna, que ela acha injusta demais. A única coisa que não conseguia entender e que deixavam seus olhos azuis cada vez mais enigmáticos era como os seus colegas de profissão conseguiam se relacionar normalmente depois de cenas fortes e altamente carregadas de emoção. Não compreendia como alguém poderia comer depois de atender um paciente arrebentado e isso era bem comum no hospital. Se pedia até pizza, depois de um curativo.

Num plantão noturno, Carlota tomava um chá na sala de espera, quando chegou a confirmação do Corpo de Bombeiros que 10 pessoas que tinham sido queimadas por um incêndio num orfanato dariam entrada no hospital em minutos. A expectativa deixou a médica quase transtornada, pois sua única temeridade era ver crianças queimadas precisando de ajuda. Como o mundo é composto de fatalidades, lá estavam elas. Eram três queimadas nas pernas e nos braços, todas precisando de carinho, tratamento médico e compreensão. Carlota tentou dar os três “remédios” ao mesmo tempo.

Os colegas a deixaram tomando conta das crianças, mas não sabiam que tinham jogado a maior temeridade da jovem médica na berlinda. Ver as crianças sofrendo era algo que Carlota não entendia, mas o sentimento profissional a fazia encarar o desafio com força e tenacidade.

Uma das crianças, a que tinha 10 anos, e um pouco menos de queimaduras chegou a dizer à Carlota que queria ter uma mãe como ela. A médica se sentiu bastante elogiada e pensou até em adotar a criança, mas depois, pesou que não teria tempo, por morar sozinha, para dispensar a atenção que uma responsabilidade deste tipo encerrava.

Após as crianças queimadas, Carlota atendeu mais 10 ocorrências antes de terminar sua jornada no plantão daquela noite. Exatamente às 5h30 saiu do hospital para ir ao repouso merecido que só os justos possuem.

Entretanto, para que a sorte possa mudar nessa vida é fundamental que se esteja praticando alguma atividade. Carlota descia por uma rua movimentada com seu carro, com sono, não percebeu que estava perdendo o controle do veículo e deu de frente com um poste da rede elétrica.

O acidente foi grave. O Fiesta que Carlota dirigia tinha ficado completamente destruído. A moça sentia que tinha alguma hemorragia interna, além de uma perna que possivelmente estava quebrada. No que pode observar notou que alguém estava ligando para o Samu. Depois de minutos ela estava sendo retirada das ferragens e levada para o hospital, o mesmo que tinha deixa há poucos minutos.

A entrada na unidade foi a clássica: corrida, com o laudo nas mãos do socorrista e um médico à espera.  Quando os atendentes do Samu disseram que se tratava de uma médica do hospital, a aglomeração em cima da maca foi inevitável, todos queriam ver quem era. “Carlota?” “Nossa, justo ela!” “Meu Deus, quem vai cuidar da Carlota?” Eram essas as expressões que se ouviam no corredor do hospital.

Carlota, que sentia dores e um misto de sedação, ainda conseguia raciocinar e pensava no seu íntimo: “Quem será que cuidará de mim?”

“É preciso levar para a terapia intensiva, vamos entubar e cuidar dessa possível hemorragia!” Carlota ouvia o que o médico, seu amigo, estava dizendo e ao mesmo tempo queria ajudar, mas não conseguia se mexer. Ela olhava e via as coisas de maneira bem embaçada, sentia uma quentura no seu ventre (seria o sangue da hemorragia?), a dor na perna vinha e voltava. Ouvia sempre o médico pedindo para verificar a dosagem da morfina. Os médicos estavam preocupados se Carlota iria resistir a cirurgia para estancar a hemorragia. Seus colegas acreditavam que sim, pois ela era bem forte, esportista, mas isso não era uma garantia.

Quando viu a preparação de sua anestesia, Carlota pensou: “É agora!” Antes de terminar a expressão em sua mente já estava dormindo. Os médicos passaram horas trabalhando no estancamento da hemorragia abdominal que tinha aparecido em virtude da pancada dada no carro.

Carlota resistiu bem, pelo menos seu corpo. O espírito? Ficou melhor ainda. Carlota estava viajando por lugares que nunca tinha visto, voava por um céu azul limpo, tranqüilo, sentia um sol abrasador no rosto e conversava com gente que nunca tinha visto.

Discutiu com pessoas que jamais pensava encontrar, poetas, cantores, escritores, esportistas e homens comuns. Falou da vida, mas não se lembrava exatamente do que fazia, apenas perguntava se poderia conhecer ainda mais, queria ver como era aquele local bonito, depois de sua viagem pelo céu, chegou num lugar de luz, uma paisagem bela onde as pessoas viviam e se sentiam completas. Foi tratada com muito carinho, ganhou abraços, beijos, carinhos, mas ouvia sempre que iria voltar, pois ainda não estava no momento de fixar residência nessa nova terra.

O mais interessante em tudo isso é que Carlota durante sua experiência nesta nova vida não sentiu dores, fome, medo, angústia ou qualquer outro sentimento comum dos mortais. Apenas foi ela, conversou, celebrou e  admirou. Era o eterno se encontrando com o humano de maneira simples.

A cirurgia realizada no hospital onde Carlota trabalhava foi bem sucedida, sua recuperação estava correndo bem na UTI. A visita de amigos e parentes era constante. Do que pode ouvir dos médicos, depois que recobrou a consciência, era que iria precisar colocar uns pinos na perna, pois a fratura tinha sido grave. Sentia dores no corte da cirurgia. Neste momento dolorido foi quando se recordou daquele local sem dor, sem fome, sem gente doente e veio à sua cabeça: “Lá não tinha dor! Era tudo belo e perfeito! Como posso voltar?”

Na noite após recobrar a consciência, Carlota tinha um misto de sono e impaciência, eram muitos os sedativos, mas a idéia de retorno para o local sem dor era grande, o desejo era imenso.

Nesta madrugada, Carlota recebeu a visita de uma mulher que trouxe um buquê de flores. Ela não a conhecia, mas sabia que as flores eram daquele local onde tinha estado durante o coma de sua operação. Nas flores haviam um bilhete, mas Carlota não conseguia ler. A mulher acariciou os cabelos de Carlota e disse que em pelo menos 3 dias ela sairia da UTI e iria para o quarto.

Carlota se recuperou. No quarto se questionava para onde havia ido o buquê recebido na UTI. A angústia tomou conta do seu corpo, mas os amigos funcionários do hospital garantiram que nenhuma pessoa havia entrado na UTI, especialmente na madrugada, como a médica bem sabia, fato que não era permitido. Carlota enquanto sedada não tinha a noção do tempo, mas sabia que invadir a UTI na madrugada era algo difícil.

Depois de 6 meses, Carlota voltou a trabalhar, ainda estava com uma bengala, pois se recuperava dos pinos no joelho esquerdo. Tudo voltava ao normal, mas por enquanto não dirigia, ainda tinha medo.

Com a rotina estabelecida, estava novamente de plantão no hospital numa dessas madrugadas. E foi num sábado que deu entrada duas pessoas que eram vítimas de tiroteio num bairro afastado da cidade.

A médica atendeu o primeiro, um menor de 17 anos, que estava todo ensangüentado e com dois tiros no peito. A situação era caótica, Carlota sabia que as chances de sobrevivência eram pequenas. Ela tentava de todas as formas fazer com que o rapaz não a deixasse, mas via a vida do menino escapar de suas mãos. Com as luvas embebidas de sangue, Carlota notou o último suspiro, mas antes uma reação inesperada. O rapaz agarrou sua mão com força, levantou parte do tronco, mesmo alvejado pelos tiros e disse, num misto de cusparada de sangue, voz embargada e esforço derradeiro: “Não é a sua vez Carlota de ir morar naquele lugar, agora é a minha chance!” Nisso, morreu.

Os ajudantes de Carlota ficaram espantados. A cena aterrorizou a todos. Porém deixou Carlota tranqüila, ela sabia muito bem que tipo de resposta tinha recebido. A vida seguiu.

Por Renato Chimirri