A menina possuída pelo demônio que morava na Vila Prado

Cena do icônico filme "O Exorcista"

Esta é uma obra de ficção*

Havia na rua Larga, na Vila Prado, em São Carlos, uma casa que depois foi demolida e deu lugar para um prédio comercial. Nos idos dos anos 70 a casa era a moradia de Ananda. Uma menina simples que gostava de brincar, era estudiosa, aluna do Guião e como todas as garotas da época estava nas ondas da era Disco, lia as revistas e ficava atenta as novelas (aquelas que sua mãe a deixava assistir) e assim via um mundo colorido bem diferente do frenético passar do tempo dos dias de hoje comandado pela internet.

Ananda gostava de sentar na frente de sua casa com a Silvinha, uma menina que morava do outro lado da rua e que era sua companheira nas brincadeiras e conversinhas sobre os futuros namorados que ainda eram apenas especulações das duas meninas, dá para imaginar que sem as redes sociais de hoje era muito mais difícil se relacionar com muitas pessoas, não? Elas estavam sempre vendo o movimento da já entupida Rua Larga.

Numa tarde de outono com aquele típico vento são-carlense batendo, as folhas das árvores caindo no canteiro central da avenida, elas resolveram se sentar embaixo de uma sombra, logo após a escola.

Silvinha foi primeiro e chamou Ananda. A menina saiu correndo, deu um beijo em sua mãe e atravessou a rua num turbilhão. As duas começaram a conversar enquanto olhavam uma revista que a Tia Lola, uma vizinha que adorava ler, tinha lhes dados. Enquanto, Silvinha lia sobre o que poderia acontecer no capítulo da novela, Ananda notou que algo brilhava embaixo do banco que estava a sua frente.

Ela seu ajoelhou e foi ver o que era. Afastou o matinho e pegou nas suas mãos. Era uma correntinha amarelinha, com um pingente, de um rosto. A fisionomia era bem diferente de tudo o que Ananda já havia visto.

Achando que havia dado sorte, ela mostrou para Silvinha seu novo achado, a menina o pegou nas mãos, olhou e devolveu para a amiga como se não quisesse segurar. “Senti um peso nisso, eu se fosse você jogava fora!”

Ananda balançou a cabeça e desaprovou. “Nunca acho nada, pare de ser invejosa Silvia! Lembra quando encontramos aqueles brincos? Eu deixei você ficar com eles! Deixe-me com minha correntinha!”

A hora passou e as duas entraram cada uma para suas casas. Ananda foi tomar um banho ligeiro e mais do que depressa estava colocando a sua correntinha. Ficou olhando no espelho, sentiu um friozinho na barriga quando passou a usar a bijuteria que havia encontrado, porém se sentiu “enfeitada”, mais mulher e portanto passou a desfilar pela casa com o achado.

Norma, a sua mãe, percebeu que a filha tinha uma bijuteria diferente no pescoço e foi logo querendo saber. “Ananda, de onde saiu esse colar?”

“Não é um colar, é uma correntinha, achei hoje à tarde enquanto eu conversava com a Silvia, foi aí na frente de casa, ela tem esse pingente que parece uma máscara!”

A mãe da jovem era uma mulher batalhadora, fazia bolos para festas, as vezes pegava faxina, tudo para complementar a renda do pai metalúrgico que herdou a casa dos avós. Ela gostou que a filha tivesse encontrado um presente, pois sabia que naquele mês não poderia comprar nada para agradar a menina. Mas como dona de casa nunca tem sossego, pois trabalha mais que muito empregados, Norma viu sua fritura na panela começar a juntar fumaça enquanto falava com  Ananda e estava no quintal.

Ela correu para a cozinha na tentativa de abaixar o fogo da panela. Foi nesse momento que Ananda pensou: “E se essa gordura espirrar na mão da minha mãe?” Pensou e aconteceu, quando Ananda viu, uma bolha grande subiu e acertou a mão de Norma que deu um grito e viu seu couro ficar em carne viva.

A mãe gritou, pediu ajuda e caiu no chão. Ananda voltou para si, correu, segurou sua mãe que havia conseguido apagar o fogo, porém estava com a mão queimada. Ela correu até o tanque, pegou água e passou na mão de sua mãe. Nisso, seu pai chegou em casa e viu todo aquele forrobodó e ajudou Norma. Os dois foram até a farmácia e compraram antibióticos e pomada, naquela época ainda não se tinha necessidade de receita.

Naquela noite, Norma cuidava do ferimento, enquanto Julio se esforçava para ficar com Zequinha em seus braços. O menino de um ano e meio era irmão de Ananda e com Norma impossibilitada, o pai tinha que assumir as funções.

Julio começou a brincar com Zequinha, mas precisava acabar o jantar. Pediu para Ananda olhar o menino por alguns minutos enquanto terminava o que sua mãe havia começado. Ananda ficou olhando para o irmão que veio até ela e rapidamente segurou a correntinha bem onde estava o pingente com o rosto. Quando Zequinha pegou o pingente em suas mãos, Ananda sentiu como se uma força tentasse sair de seu corpo e empurrou seu irmão para a frente. O menino caiu no chão assustado e começou a chorar. “Ananda, Ananda, o que foi?”

Ela respondeu, marotamente, que o Zequinha tinha caído, mas ela já estava mentindo para o pais, pois não queria contar que sentiu na pele e não gostou, a chance de perder a correntinha e o pingente com uma carinha. Zequinha se levantou e voltou à carga para tentar pegar a correntinha, mas não conseguiu, Ananda o xingou baixinho e olhou com uma cara de desaprovação. Quando o menino veio novamente em sua direção pensou: “Se escorregar no tapete vai de boca no chão!”

Dito e feito. Zequinha escorregou em uma pilha daqueles tijolinhos de montar casinhas (o sonho de quem queria ser arquiteto) e caiu de boca. Os tijolinhos vieram por cima de sua cabeça e um galo apareceu na hora. Ele começou a gritar, sua mãe que estava deitada com mão queimada se levantou para ver o que estava acontecendo e encontrou o pai todo atordoado consolando o menino. “Deixe Julio, deixe ele aqui!”, falou Norma pegando o menino com uma mão no seu colo e sentando no sofá.

A janta saiu, todos foram para a mesa. Zequinha na cadeirinha de criança perto da mãe, Ananda sentada tentando disfarçar o apego pela correntinha, o pai atabalhoado servindo tudo e a mãe se queixando de dores, um jantar que mais parecia um muro das lamentações.

Ananda queria bife e batatas fritas, mas seu pai fez apenas o bife, não deu tempo de fritar as batatas. Ela reclamou muito, levou uma bronca, e comeu calada. Depois da ordem do pai de ir para o quarto sentou na cama e abriu a janela. Estava proibida de sair e ficou olhando o movimento. A jovem notou que Valmir, um vizinho chato que sempre implicava com ela estava atravessando a rua e naquele momento pensou: “Esse podia levar uma porrada de um carro e quebrar a perna!”

No mesmo instante uma Kombi subiu por um dos canteiros centrais da Larga, atravessou e bateu em Valmir que no chão urrava de dor. Ananda ria e segurava a correntinha, diabolicamente ela sabia que qualquer coisa que pensava acontecia com as pessoas e no seu íntimo ela tinha certeza que a força vinha daquele objeto que tinha encontrado.

No seu quarto, havia uma Nossa Senhora das Graças pendurada na parede, Ananda pegou uma caneta preta e simplesmente rabiscou toda a imagem da santa e a virou de cabeça para baixo. Começou a se olhar no espelho e via que suas bochechas estavam mais coradas e seu olho mais vermelho.

Seu pai resolveu ir até o quarto para ver o que a filha reclamona estava aprontando e quando chegou até a porta já foi logo chamando por ela: “Ananda, Ananda, o que está fazendo?!”

Ananda pensando que o chato havia chegado pensou que a porta poderia bater no seu rosto e com muita força. Ele abriu-a e misteriosamente a mesma veio com toda a força em sua direção, escorreu sangue do seu nariz que ficou todo roxo.  O pai gritou, xingou, disse que a porta estava com defeito, enquanto isso Ananda ria por dentro do sofrimento que havia imposto para seus familiares e ainda contou para o pai que uma ambulância estava recolhendo seu vizinho que passava na rua e havia sido atropelado. Naquele noite, Valmir, o atropelado, teve uma embolia e morreu.

Todos foram dormir e Ananda passou a observar pela fresta da janela a dor dos parentes do vizinho falecido e sorria pelo canto de sua boca, sempre segurando a correntinha.

Depois de alguns minutos, ela escutou uma voz lhe chamar pela janela. “Ananda, Ananda!!?”

Ela foi correndo, abriu e viu uma senhora de cabelos brancos, roupa preta e olhos arregalados lhe perguntar: “Gostou do presente que lhe dei?”

“Quem é a senhora?”, perguntou. “Eu sou a dona da correntinha, ela veio de um lugar especial, onde as pessoas podem ser quem elas quiserem e libertar suas fantasias, todos os anos eu escolho uma menina para usá-la, esse ano foi você!”

Ananda se assustou, mas depois, já tomada por aquele espírito disse que era muito gostoso ser dona da correntinha, mas a senhora lhe deu uma incumbência: “Se você quer ser dona realmente precisa cumprir a última tarefa!”

“Qual seria?”, questionou a jovem com um olhar curioso. “Você precisa acabar com a sua família, pensar em destruir tudo e depois seguirá comigo e será minha aprendiz, tento conquistar uma discípula há muitos anos, mas não consegui até agora!”

Ananda que ainda era uma menina pensou na situação e resolveu que aquilo era o melhor para ela. Imaginou sua casa pegando fogo e se você pensa, as coisas acontecem! As chamas começaram na cozinha, se alastraram pela sala e invadiram os quartos.

Os vizinhos viram o fogo e acionaram o Corpo de Bombeiros que foi até o local, mas as labaredas eram muito fortes e quando eles chegaram era tarde demais. O saldo de tudo? Quatro mortos, duas crianças e dois adultos e a casa se transformou num monte de escombros e madeira queimada. Os principais jornais da época noticiaram o acontecido como incêndio inexplicável, a perícia não conseguiu comprovar nada.

Dois dias depois da tragédia, um dos vizinhos viu uma senhora no local e foi questioná-la: “O que a senhora faz aqui nos escombros?”

A velhinha disse com um sorriso: “Vim aqui achar essa correntinha é de estimação da minha família, meu filho veio aqui ontem combater o fogo e deixou cair, ele disse que não iria mais encontra-la, mas tinha algo me dizendo para vir procurar e ´graças a Deus´ deu certo!”

A diabólica velhinha com cara de anjo não gostou do atrevido rapaz que veio lhe perguntar o que fazia na cena de tragédia. Logo que ele entrou em sua casa, ela lhe desejou um tombo. Resultado? Ele caiu de costas e quebrou uma costela.

A correntinha segue com a velhinha que ainda procura uma discípula.

Renato Chimirri

Foto: Filme O Exorcista