A menina que pedia uma lata de leite condensado

Era uma dessas manhãs ensolaradas de fevereiro quando a campainha tocou em minha casa. Fui atender e lá estava uma bela jovem. Bem vestida, sorriso um pouco tímido no rosto. Me falou: “Moço, você não uma lata de leite condensado para me dar?”

Sabemos que nos dias de hoje muitas pessoas estão nas ruas pedindo ajuda em função da grave crise econômica que dizimou empregos, pela inépcia dos governos em ter políticas públicas para atender os mais necessitados e também pela devastação causada pela pandemia que matou milhares no Brasil, milhões no mundo e destroçou os setores econômicos. Mesmo assim, achei aquele pedido inusitado. Pensei: “Nossa, leite condensado?”

Pedi a jovem que esperasse uns minutinhos que olharia no armário e ela deu sorte. Tinha uma lata de leite condensado que ofereci à ela. A bela moça, gentil, se alegrou e sorriu por baixo da máscara: “Muito obrigado!”

Ela foi embora e eu fiquei imaginando que o leite condensado seria usado para fazer algum doce. Eis que nesta semana, depois de uns 15 dias que eu tinha lhe dado aquela lata de leite condensado, a campainha tocou de novo, era a mesma jovem e com o mesmo pedido. “Você não tem uma lata de leite condensado para me dar?”

Dias antes, havia passado no mercado para comprar algumas coisas e lembrei do pedido da jovem e comprei uma lata a mais para deixar na dispensa, imaginei que ela pudesse voltar e voltou. Fui novamente no armário, peguei a lata e lhe ofereci. Ela agradeceu com o mesmo sorriso.

Não perguntei nada, pois não era meu interesse saber o que a moça faria com o leite condensado, mas a vida tem surpresas. Essa semana estava andando pelo Centro e não é que vi a moça vendendo doces e “ralando” para ganhar a vida de maneira honesta? Ela me viu, deu um tchauzinho e um leve sorriso e eu respondi e imaginei que um pouquinho daqueles doces tinha a minha ajuda e de outras pessoas que poderiam ter contribuído para que ela pudesse ter um trabalho digno. Ajudar a jovem é um prazer, é claro que infelizmente não temos condições de ajudar a todos, quisera, pudéssemos. Mas ver que alguém se esforça e nela entender que há outros milhares fazendo a mesma coisa enche o coração de alguma esperança de que essas pessoas consigam ter algum sucesso no futuro e este sucesso pode implicar em dar conforto, segurança e estabilidade para a sua família.

Oferecer o leite condensado, dar comida para quem precisa no momento em que você pode, roupa para quem não tem, cobertor para quem precisa são coisas que tenho certeza que milhares de são-carlenses fazem porque é assim que somos: solidários. Que chegue um dia em que essa moça e outras pessoas não precisem mais de nossa ajuda e possam caminhar tranquilas porque a vida e o Estado lhes oferecem oportunidades de crescimento de maneira contínua e sustentável.

Renato Chimirri