A “miséria rica” continua em São Carlos e no resto do Brasil

São Carlos: pujante, mas com problemas

Muitos comemoraram o fato de São Carlos aparecer entre as cidades mais ricas do Brasil de acordo com o ranking da Fundação Getúlio Vargas, ocupamos a 74ª colocação, baseado nas declarações do Imposto de Renda. Talvez o fato fosse interessante apenas para observar que temos uma quantidade considerável de pessoas que tem uma vida relativamente boa no município, o que também é muito importante.

Mas podemos fazer um exercício e pensar o que seria dessa cidade tão pujante e tão rica se tivéssemos cuidado de mazelas que há tempos nos assustam e que ninguém tocou na ferida ou se tocou foi aos poucos para tentar não retirar a casca e assim fazer com que dor não volte tão forte.

Basta olhar, por exemplo, as seguidas crises no abastecimento de água. Há quantos anos isso acontece numa cidade rica e poderosa como São Carlos? Recentemente, estive na Santa Felícia conversando com uma mulher e ela me disse assim: “Você pode voltar depois das 16 horas, essa é a hora que a água acaba, então não tenho como tocar meu serviço!” Ou seja, a falta do abastecimento se transformou em marcação de tempo, um absurdo sem tamanho para um município com engenheiros saindo pelo ladrão, não é?

E a habitação popular? As casas financiadas para os mais pobres sumiram do Minha Casa, Minha Vida e isso vem desde o governo Temer e pelo que vimos não voltarão à pauta tão cedo, os políticos esqueceram que isso gera emprego em construtoras e etc. A Prefeitura não tem poder para investir, aguarda sempre por incorporadoras que por sua vez vão colocar dinheiro onde dá lucro porque querem receber pelo investimento feito, apesar de alguns loteamentos trazerem benfeitorias para a cidade é evidente que está cada vez mais difícil o sonho da casa própria por aqui e em outras localidades. Enquanto isso, muita gente mora mal ou não tem uma casa inadequada ou simplesmente não mora.

Podemos também falar do enrosco da licitação do transporte. Cobram a empresa que atua por investimentos, porém o processo não anda, é moroso e se consiste em mais um gargalo, afinal de contas diversas inovações poderiam ser implementadas e isso facilitaria a vida da população mais pobre.

O que podemos falar dos equipamentos de saúde? A rede precisa funcionar, precisa melhorar, estamos no meio de uma pandemia que já matou milhões ao redor do mundo e que pegou São Carlos com milhares de casos. Hoje a discussão não pode ficar apenas em torno da COVID-19, mas é preciso lembrar que a municipalidade continua precisando de profissionais médicos para repor as lacunas que existem e assim melhorar o atendimento à população porque a pandemia passará, mas os problemas persistirão.

É possível também falar da quantidade de gente na rua? Esse fenômeno não é só de São Carlos, mas de todo o Brasil e enquanto medimos o número de supostos ricos que temos em cada localidade nos esquecemos dos mais pobres, daqueles que precisam de um prato de comida. Aqui convém elogiar o esforço da Prefeitura com restaurantes populares e acolhimento aos necessitados. Entretanto, o número de pessoas que estão sem um teto e sem assistência de lado algum só demonstra que a concentração de riqueza nas mãos de poucos no Brasil mostra que nossa sociedade ainda é brutalmente desigual.

Enquanto o país conta seus poucos ricos e que vivem muito bem, alguém, em alguma parte deste imenso Brasil está morrendo de fome e dessa estatística pouco falamos, infelizmente.

Renato Chimirri