
Na velha rua 7 de Setembro, bem no centro de São Carlos, havia uma casa antiga, de janelas sempre fechadas e portas que nunca pareciam se abrir. Dentro dela vivia a família Albuquerque — pai, mãe e dois filhos pequenos. Eram figuras pálidas, de olhares vazios, que raramente saíam para a rua. Quando o faziam, caminhavam juntos, de maneira sincronizada, como se um mesmo fio invisível os movesse.
Os vizinhos falavam em sussurros sobre aquela casa. À noite, havia quem jurasse ouvir sussurros e murmúrios, como se várias vozes falassem ao mesmo tempo, numa língua desconhecida. Outras vezes, sombras passavam atrás das cortinas, se alongando em formas inumanas. Certa vez, um carteiro tentou entregar uma encomenda e viu algo estranho: a mãe abriu a porta apenas uma fresta, mas, dentro da casa, atrás dela, os móveis pareciam estar… ao contrário. O teto estava no chão. As cadeiras e mesas pareciam presas ao ar. Os filhos estavam parados na parede, desafiando a gravidade.
Depois desse dia, o carteiro nunca mais voltou.
Com o tempo, os rumores se tornaram medos. E os medos se tornaram certeza. Uma família que nunca envelhecia. Que nunca adoecia. Que nunca mudava. O tempo passava, mas os Albuquerque eram sempre os mesmos.
Então, uma noite, tudo mudou.
A cidade acordou em silêncio. Um silêncio antinatural. Os passarinhos que costumavam cantar nas árvores do centro estavam calados. Os cães da vizinhança, que latiam a qualquer movimento, estavam mudos. Foi quando alguém notou: a casa dos Albuquerque estava… vazia.
A porta escancarada. As janelas abertas. Nenhum sinal da família.
As pessoas se reuniram diante da casa, hesitantes. Ninguém queria ser o primeiro a entrar. Mas o cheiro os atraiu. Um cheiro estranho, adocicado e metálico, que se espalhava pelo ar.
Dentro da casa, não havia móveis. Não havia roupas. Não havia nada que sugerisse que alguém morara ali um dia. Apenas as paredes… marcadas por algo que parecia garras. No chão, símbolos desenhados em padrões incompreensíveis. E, bem no centro da sala, um espelho enorme, de moldura negra.
Quando um dos vizinhos se aproximou, viu seu reflexo. Mas não era ele. Era a mãe dos Albuquerque. Atrás dela, os filhos e o pai, com sorrisos distorcidos, os olhos vazios como buracos. Ela moveu os lábios, mas nenhum som saiu. Apenas o silêncio absoluto.
O vizinho deu um passo para trás, tropeçando. O espelho se estilhaçou sozinho, sem que ninguém o tocasse.
Depois daquele dia, ninguém nunca mais viu ou ouviu falar dos Albuquerque. Era como se nunca tivessem existido. Nenhum registro, nenhuma fotografia, nenhum documento. Apenas a casa vazia, que, com o tempo, foi demolida para dar lugar a um estacionamento.
Mas, às vezes, na calada da noite, quem passa pelo local jura ouvir sussurros. E, por um breve instante, um reflexo aparece no vidro dos carros estacionados. Um reflexo que não deveria estar ali.
Esta é uma obra de ficção.








