A professora são-carlense que foi presa por lutar pelos trabalhadores recebe homenagem

Jussara foi professora de várias disciplinas

Jussara Florencio, nasceu em São Carlos, em fevereiro de 1961 e na inquietude de uma jovem cheia de ideais, mudou-se para São Paulo aos 16 anos e logo iniciou sua militância diante de um país em plena ditadura. Começou como militante secundarista, junto da geração de 1977, ela fez parte do grupo SOMOS e da Convergência Socialista (um embrião do que viria a ser no futuro o Partido Socialista dos Trabalhadores Unificado). Para se manter, Jussara conseguiu um emprego no antigo banco Comércio e Indústria de São Paulo, Comind, cuja sede ficava na avenida Angélica e passou a dar expediente no setor de almoxarifado da casa bancária.

Dividindo seu tempo entre a árdua jornada de bancária e a militância no grupo político de origem Trotskista, dedicou-se também à defesa dos direitos dos homossexuais em São Paulo. O Grupo Somos colocou-se na vanguarda do movimento social na cidade e na organização de várias manifestações contra a arbitrariedade e a barbárie da polícia e ela se posicionou na linha de frente das organizações, das greves trabalhistas e manifestações que ocorreram na cidade entre os anos de 1978 e 1981. Isso acabou lhe rendendo três prisões.

Em 1981, Jussara resolveu voltar a São Carlos, retomar seus estudos e ingressou na Universidade Federal de São Carlos, onde se graduou em Pedagogia. Sem deixar a construção de quem era de lado, participou ativamente da fundação do Partido dos Trabalhadores na cidade, sempre presente nas principais construções do partido ao longo do tempo. Após a graduação, ela trabalhou na Secretaria de Educação e Cultura do Estado do Mato Grosso, entre 86 e 89. Durante este período casou-se, teve uma filha, separou-se e voltou para São Carlos definitivamente em 1992.

Neste momento até os anos 2000, trabalhou como professora de filosofia, sociologia e história. Após a retirada das duas primeiras disciplinas da grade curricular nacional, teve um período difícil de desemprego e dezenas de aulas como professora substituta que não fechavam a conta mensal. O respiro veio somente em 2001, ao assumir o cargo de assessora no Orçamento Partitivo de São Carlos. Aos 40 anos, ela dizia que finalmente havia encontrado a sua atribuição na vida: conversar com a população, entender a urgência local para planejar e implementar a demanda. Depois, ela passou pela Secretaria de Cidadania e Assistência Social até chegar à Economia Solidária, onde teve uma militância aguerrida e dezenas de projetos orgulhosamente implementados.

Jussara nunca deixou de estudar. Terminou uma segunda graduação em História, fez duas especializações em gestão de Economia Solidária e Educação para Jovens e Adultos e iniciou um mestrado em Políticas Públicas. Voltou a trabalhar com crianças em 2013, como professora passou pelas CEMEI Dionísio da Silva em Santa Eudóxia e CEMEI João Muniz no Jardim Cruzeiro do Sul.

Jussara trabalhou com jovens, adultos e crianças, com um forte senso de justiça, lutou por sua classe, por seus alunos e pelos seus ideais. Em 2020, descobriu um câncer de pulmão agressivo, que não deixou tempo de se despedir das centenas de amigos e companheiros que fizeram parte de sua história. Ela faleceu no dia 15 de abril de 2021, aos sessenta anos, de mãos dadas com sua filha e de seu amigo de uma vida, Marcos Zanetti. Deixou quatro irmãos, seis sobrinhos e a vida cedo demais. Mas sua risada, jovialidade e trajetória seguem conosco.

Ontem, por iniciativa da vereadora Raquel Auxiliadora, a Câmara aprovou o nome de Jussara Florencio à rua 23 no Condomínio Residencial “Salto do Monjolinho” em São Carlos.