A universitária-cadáver

Um mistério no muro/Foto: Maurício Duch

*Esta é uma obra de ficção

A vida acadêmica intensa em São Carlos também tem seus prazeres. São centenas, para não dizer milhares de repúblicas ocupadas por estudantes de todos os cantos do Brasil que se unem com frequência para um verdadeiro “circuito” de festas que conta também com a participação de gente da cidade.

Ocorre que naquela noite acontecia uma festa na Cidade Jardim, na Alameda das Gardênias, na república “Canta Galo”.

Cervejada, música boa, comida, gente conversando para todos os lados e Miguel, um universitário estudante da UFSCar, apreciando a festa. Ele estava acompanhado do amigo Benário, e os dois viam a balada, mas ainda estavam um pouco desentrosados, eram os bichos, os calouros, mas não podiam perder a oportunidade de conhecer o novo mundo.

Miguel vinha de uma cidade pequena do interior de SP, Cristais Paulista, que fica na região de Franca. Tinha uma irmã mais uma nova que vivia dizendo que prestaria USP em São Carlos para poder morar com seu irmão, e isso o aterrorizava com tanta frequência quanto as provas do seu curso de engenharia de produção.

Benário era de outra linha. Aluno de Ciências Sociais, paulistano de Itaquera, conheceu Miguel num ponto de ônibus. No dia estavam apenas os dois esperando a lotação, ambos com camiseta da UFSCar e uma conversa começou. Cada um contou um pouco da vida e a dupla descobriu que poderiam se dar bem morando na mesma casa. Alugaram um imóvel pequeno na Vila Marina de uma senhora chamada Mirtes e passaram a morar nos fundos. Não davam trabalho, apenas estudavam, e tinham a vida noturna que as universidades e seus afazeres lhes proporcionavam.

Na festa em que estavam ficavam de olho em tudo. Na roupa dos participantes, algumas muito loucas, como eles mesmos costumavam definir, nos rapazes que eram mais populares e conseguiam conversar com todo mundo e nas belas mulheres que estavam no encontro. Miguel costumava olhar com os olhos e lamber com a testa, como se diz no popular, pois ainda era dotado de uma timidez gigantesca.

Mas como tudo que é sólido desmancha no ar, numa incursão por dentro da casa, Miguel viu pegando uma long neck algo que o deixou maravilhado.

Lá estava ela, pela branca, linda, alta, cabelos compridos negros e um sorriso contagiante, porém desacompanhada, o que lhe abria margem para uma aproximação. O rapaz queria, mas isso lhe parecia uma verdadeira “guerra dos mundos”, pois chegar na moça do nada não estava nos seus planos e também não fazia parte de sua coragem.

Miguel ficou uns cinco minutos observando a jovem e resolveu se sentar num sofá velho, onde um gatinho dormia tranquilo, apesar da balbúrdia daquela noite. Na plaquinha do nome do bichano estava escrito “Filé”.

Do lado do Filé, Miguel ainda olhava para aquela mulher de vestido branco e com uma tatuagem com o símbolo do infinito no braço esquerdo. Tentava disfarçar, para muitos que passavam por ali e perguntavam o que ele estava fazendo, apenas dizia que descansava porque não podia ficar tanto tempo em pé, mas na verdade estava de olho naquele colosso, definição perfeita que havia encontrado para a mulher.

Sabendo que não conseguiria falar nada por causa de sua timidez, Miguel decidiu se levantar. Quando se mexeu, foi flagrado e abordado. “O que faz aí, onde pensa que vai? Fale comigo, rapaz! Meu nome é Carrie!”

Seria Carrie por causa da música do conjunto Europe? Ou por causa de Carrie, a estranha, o icônico filme de terror?

Miguel parou, ouviu aquele nome e pensou nas inúmeras referências do mundo pop que poderiam passar por aquele momento. Se sentiu aliviado por ter sido chamado para conversar. Olhou de cima até embaixo e a cumprimentou com um aceno. “Na verdade estou aqui descansando, meu nome é Miguel, Carrie vem do filme?”, perguntou.

A jovem riu, já deveria ter escuta aquilo várias vezes e contou a ele que tinha parentes ingleses  e que por isso havia ganhado aquele nome e que isso já havia sido decidido desde os anos 60. “Sessenta? Como assim? Sua mãe sabia que você iria nascer?”

Carrie, mesmo não sendo tão estranha, deu de ombros para a pergunta e disse apenas que era uma longa história. Foi até o balde e pegou uma cerveja para Miguel e começou a querer saber de sua vida. Janjão, um daqueles famosinhos das festas, passou do lado da conversa e ficou espantado ao ver o bicho se entendendo com uma mulher tão bonita. Contou até para outros colegas.

O clima de conversa entre os dois foi se desenvolvendo e Miguel começou a contar sua origem, de onde vinha e o que gostava de fazer em São Carlos, falou que morava na Vila Marina no que ganhou uma resposta interessante: “Ah, que legal, Miguel! Também moro perto, entre a Salgado Filho e a avenida São Carlos! Moro ao lado de muita gente boa!”

Num toque, Carrie ganhou a confiança de Miguel. Ela apertou a mão do rapaz e foi correspondida prontamente. A garota pode sentir aquela mão quente, quase suada, apertando com gosto a sua e olhou fixamente para o rapaz que tinha olhos claros e cabelo castanho, mas que também conservava algumas espinhas da adolescência em Cristais Paulista.

Apenas um detalhe chamou a atenção de Miguel. “Sua mão está fria, o que houve?”, disse segurando Carrie.

Ela respondeu de forma rápida. “Ah, é porque eu estava pegando a cerveja no balde com gelo, a garrafa tá bem gelada, deve ser por isso!”

Miguel se convenceu, algumas pessoas têm “mais frio” que as outras e Carrie estava com um vestido curto numa cidade como São Carlos que é marcada pelo friozinho rotineiro. Outro detalhe que ele notou foi um pouco de barro na sola da sandália da moça, mas sobre isso não perguntou nada, afinal de contas, poderia levar uma invertida com tanta pergunta chata.

As mãos ficaram entrelaçadas por um tempo, conversa vai e conversa vem, e Miguel quis saber de onde Carrie tinha vindo.

Ela contou que havia nascido em São Carlos e que no começo de sua vida morava numa casa que ficava na esquina da rua Major José Ignácio com a Dom Pedro II, mas que hoje esse lugar não existe mais e que o prédio foi demolido. “Bem no Centro, acabaram com a minha casa por causa de uma festa, uma bobagem de carnaval, minha falecida mãe morreu de desgosto porque nossa casa foi destruída e tudo terminou daquele jeito, meu pai se foi num naufrágio de seu barco enquanto pescava no rio Tietê”, revelou.

“Então você está sozinha?”. Carrie disse a Miguel que não estava sozinha, que tinha muitos amigos e alguns parentes vivos, mas que morava sem ninguém e que tinha herdado uma herança importante e que isso a fez morar perto da universidade federal e assim poder participar dos eventos e das festas. “Ah, eu já me formei, foi há um tempo, mas continuo em espírito nas festas!”, brincou.

Miguel estava ainda mais adoçado pelo jeito de Carrie, isso o deixou realmente de quatro patas perante aquele sorriso bonito, dentes certinhos, ele já se imaginava beijando aquela boca quando seu desejo foi atendido. Um beijo, um abraço, um aperto. Carrie o agarrou e lhe tascou um daqueles “cola-beiço” como se costuma dizer por aí que o universitário ficou doidinho.

Depois de mais alguns beijos resolveram andar pela festa. Lá estava Miguel, vitorioso, vendo um joinha do seu amigo Benário como grande prêmio por ter conhecido uma das moças mais bonitas da noite.

Eles foram até o quintal quando Carrie reparou no tempo. “Nossa, vai chover novamente! O céu está vermelho, tenho medo de trovões e eles não param!”

Miguel a abraçou, como um verdadeiro protetor e disse que nada iria ocorrer. A ventania se transformou numa chuva fortíssima. A energia na região da Cidade Jardim foi cortada por diversas vezes e um verdadeiro “rio” se formou na Alameda das Gardênias em poucos minutos de chuva. Árvores caíram e pessoas começaram a correr para buscar abrigo, a festa praticamente se interrompeu.

Miguel começou a vasculhar no celular os portais da cidade para bisbilhotar a situação por causa da enchente e foi quando descobriu no São Carlos em Rede que o muro do cemitério Nossa Senhora do Carmo havia desabado por causa do temporal. “Caiu o muro do cemitério na avenida São Carlos, a construção era centenária, a chuva na cidade está muito forte!”

Carrie ao ouvir as palavras de Miguel arregalou seus dois olhos e disse que precisava ir embora. A chuva era muito forte e Miguel insistiu para ela ficar, porém a moça simplesmente o largou, desviou das pessoas no meio da aglomeração e foi até porta.

Com muita insistência e depois de não ouvir diversas recomendações saiu na chuva, tirou as sandálias e começou a andar na tempestade. Miguel resolveu ir atrás e gritava por Carrie. A moça subiu a Alameda das Gardênias correndo e quando ouviu Miguel apertou o passo.

O jovem ficou olhando e não acreditou que quando conseguia se aproximar dela, Carrie disparou, correu muito e desapareceu no meio da tempestade.

Miguel correu, correu e correu. Chegou esbaforido até a frente do cemitério, do lado do Jaú Serve. Lá, só encontrou interdições e o local todo alagado, além do trânsito e do muro do cemitério caído.

Perguntou aos Guardas Municipais se haviam visto uma mulher com a descrição de Carrie, mas todos negaram e disseram que ninguém havia passado por ali.

Atônito, ele foi para a casa. Chegou, tomou um banho, jogou sua roupa detonada para lavar e ficou pensando em mil teorias sobre para onde Carrie poderia ter ido. Dormiu um sono agitado e acordou logo as sete da manhã.

Resolveu sair para caminhar e voltou ao local onde havia caído o muro do cemitério. Passou pelos escombros, entrou no lugar e viu a destruição. Começou a olhar algumas sepulturas e neste momento precisou sentar.

Em cima de um túmulo estava uma parte caída do muro. Na lápide, a seguinte inscrição: Carrie Walker, nascida em 12/12/ 1931 e morta em 25/10/1949. A foto era a mesma da noite de ontem, o vestido da imagem também.

Os olhos arregalados deixavam Miguel espantado. As pernas ficaram moles e os braços bambos. Foi assim, nessas condições, que ele retirou uma pedra da lápide e leu a outra inscrição: “Dizem que essa foi a mulher que dançou com o demônio numa festa de carnaval”.

O misto de sentimentos era grande. Miguel não sabia se teria forças para continuar. Uma festa jamais seria a mesma, não?

Texto de Renato Chimirri