Alguém precisa ser a luz no fim do túnel

Fuga do Cabul: uma dificuldade

Por Tiago Gomes

“As imagens que mostram o caos e o desespero”, frase que faz parte do título da matéria da BBC Brasil do dia 16 de agosto de 2021 sobre o que vem acontecendo no Afeganistão.

As cenas vistas pelo mundo inteiro são aterradoras, aflitivas. Pessoas caindo de aviões, tentando sair o quanto antes de seu país devido à tomada de controle pelo Talebã, grupo fundamentalista islâmico. São cenas de desespero que causam caos.  Caos que leva ao desespero.

As imagens mostram centenas de afegãos desesperados por ajuda. Famílias inteiras tentando fugir, buscando proteção de qualquer outra nação que as possam acolher. Imagens como as circuladas nestes últimos dias se apresentam como comum aos olhos dos que estão longe. Talvez passe pela nossa cabeça que é mais um conflito naquela região. Nada de novo. Afinal, estamos tão acostumados a ver e ler sobre tantas crueldades, que elas têm se tornado banais. A insanidade é o novo normal, como diz uma canção que ouvi recentemente.

Os registros divulgados nos noticiários sobre a situação do Afeganistão têm causado comoção na maioria das pessoas, e isso significa algo, ou, pelo menos, deve significar. Assistir aos jornais ou ler notícias em que pais, mães, e crianças sofrem dificuldades terríveis e lutam pelas suas próprias vidas, desperta em nós sentimentos de empatia e justiça, o que demonstra que ainda há humanidade no seu humano. Portanto, é possível encontrar compaixão nesses tempos de caos e incertezas.

Todos os dias nos deparamos com imagens, textos, vídeos e notícias dos problemas que continuam se repetindo, dia após dia. Pai contra filho, filho contra pai; traições; ganância; brigas por poder, por dinheiro; fome; pestes… Tudo acontece todos os dias, se tornando rotina. E quando se torna rotina, se torna normal.

Ao ligar a televisão e colocar num canal de notícias, vemos pessoas aguardando resgate, tentando desesperadamente sair de sua terra, forçadas pelo medo a abandonarem seus lares em busca de refúgio devido ao temor de um regime político-religioso fundamentalista. Não podemos aceitar que seja normal, que seja apenas mais um problema distante de nossa realidade, embora a nossa realidade não esteja tão longe do caos que lá se apresenta.

A crítica da música é esta: seria loucura de qualquer um tratar o caos como normal. Ao ouvi-la, refleti exatamente sobre o contexto atual do nosso pequeno mundo que parece azul: crise humanitária no Afeganistão, vírus dizimando vidas, desemprego altíssimo no Brasil e em vários países, fome… relações humanas quebradas, interrompidas. Enfim, pessoas desesperançadas, tristemente desesperançadas.

O nome da música é “Insanidade”, e ela deixa bem claro que há falta de sensatez, de organização, que há uma sensação contínua de que ‘algo errado não está certo’, de que o desvario do dia a dia se tornou normal. Mas o perigo de se tornar normal é que as pessoas vão se tornando insensíveis as dores das outras, e a pior consequência é que “a gente se esquece que toda dor é uma prece”, como diz a letra. Tudo pode acabar caindo no esquecimento ao final da noite, e no dia seguinte o que era importante, já não o é mais. Porém, a dor do outro não passa. A prece ainda pode ser ouvida, e só pode ser ouvida por alguém.

Essa canção, interpretada pelo cantor Suricato, e composta por ele em parceira com Bibi e Filipe Soares, quem também a produziu, nos leva a uma reflexão exata sobre quem deve ouvir essa oração e quem vai achar a luz no fim do túnel. No meio de tanta bagunça, de incertezas, de total escuridão, para achar algo é preciso enxergar, pois não é possível que uma pessoa guie outra por um caminho se as duas estão sem visão. Mas, para mim, não se trata de alguém olhar além e conseguir ver um faixo de luz ao longe. Luz essa que é esperança dos aflitos e oprimidos que vivem num mundo em que barbaridades são tidas como normais. Para mim cada um de nós deve ser a luz no fim do túnel. Cada um deve representar a esperança para o outro. A proteção contra o nosso próprio mal é mútua. Como seres sociáveis, precisamos nos colocar no lugar daqueles que passam por tantas dificuldades. Mais do que sermos sensíveis, necessitamos ser misericordiosos.