Ao menino que morreu…

O menino que morreu ainda corre.

Corre nas ruas de terra que ficaram para trás, no barulho da bola quicando na calçada, no grito da mãe chamando para dentro antes que a noite engolisse o resto da tarde. Ele corre na memória de quem ficou — e memória é um tipo estranho de eternidade.

Ninguém deveria aprender tão cedo o peso da partida. Ninguém deveria descobrir que o silêncio pode gritar. A morte, quando visita um velho, parece cumprir um calendário triste, mas esperado. Quando escolhe um menino, ela arromba a porta, quebra os pratos, apaga a luz do mundo sem pedir licença.

O menino que morreu tinha planos que não cabiam no bolso. Queria ser astronauta, jogador, herói de desenho animado — tudo ao mesmo tempo, porque a infância é o único tempo em que os sonhos não competem entre si. Tinha o joelho ralado de ontem e a esperança intacta de amanhã. Tinha perguntas demais para um mundo que responde de menos.

Agora, o quarto guarda brinquedos em estado de espera. O caderno aberto na última página escrita parece acreditar que ele volta depois do recreio. A bicicleta encostada no muro não entende por que ninguém a tira para passear. Há objetos que não aceitam a ausência; eles continuam fiéis ao dono, mesmo quando o dono já não pode voltar.

A cidade segue. Os ônibus passam, as padarias abrem, os noticiários falam de outras urgências. Mas para quem amava aquele menino, o relógio perdeu o sentido. Existe um antes e um depois — e no meio, um abismo. A vida continua, dizem. Continua, sim, mas manca.

O menino que morreu deixou uma pergunta suspensa no céu: por quê? Não há resposta que console. Há apenas o amor — esse insistente — que se recusa a morrer junto. Amor que se transforma em saudade, em fotografia na estante, em história repetida nos almoços de domingo. Amor que vira lágrima escondida no travesseiro e sorriso tímido quando alguém lembra de uma travessura.

Talvez os meninos que morrem cedo virem estrelas não por poesia, mas por necessidade. Porque precisamos apontar para o alto e acreditar que ainda brilham em algum lugar. Que continuam correndo, agora por campos que não conhecem dor. Que continuam sendo meninos — inteiros, leves, eternos.

Ao menino que morreu, deixamos nossas palavras tardias e nosso carinho que já não alcança suas mãos pequenas. Mas se houver algum jeito de o amor atravessar o invisível, que ele chegue até você como um abraço demorado.

E que você, onde estiver, continue correndo. Nós, daqui, seguimos entristecidos.