As digitais que incriminam

Na madrugada em que as estrelas pareciam sussurrar em código Morse, São Carlos adormeceu sem saber que acordaria cercada de mistério. Acordou, sim, com a notícia de um crime que ninguém conseguia compreender: todos os espelhos da cidade haviam sido roubados. Não quebrados. Roubados. Sumidos, com moldura e tudo, até os dos retrovisores dos carros.

O delegado Antunes, homem de bigode milimetricamente aparado e olhos que piscavam em compassos descontínuos, foi chamado às pressas. Um caso como aquele não existia nos livros — nem nos de Direito Penal, nem nos de lógica formal.

— Espelhos não somem por vontade própria — declarou ele, enquanto examinava a parede nua da barbearia do Tonico, onde antes pendia um espelho de 1923. — A menos que estejamos lidando com reflexos que não querem mais refletir.

As palavras soaram absurdas, mas ecoaram com sentido na mente do povo, pois surrealismo é o que resta quando o real já não responde.

Antunes passou a investigar locais que, apesar de não terem mais espelhos, guardavam um detalhe estranho: marcas de digitais. Milhares delas. Em todas as paredes onde antes havia um espelho, havia agora impressões digitais que se multiplicavam como fungos. Algumas no teto. Outras em lugares inacessíveis até para aranhas.

O perito chorou.

— Delegado… essas digitais… não pertencem a ninguém.

Antunes acendeu um cigarro invisível, tragou fundo e murmurou:

— Como podem digitais não pertencerem a ninguém?

A cidade entrou em estado de perplexidade. Crianças recusavam-se a se olhar em poças d’água. Os salões de beleza entraram em colapso filosófico. Narcisos modernos mergulharam em crises de identidade.

Foi então que, numa noite embebida de vinho e relâmpagos secos, Antunes sonhou com um espelho que falava. Era um espelho antigo, moldura barroca, dentes de ouro. No sonho, o espelho dizia:

— Quem carrega muitas digitais jamais saberá qual é a sua.

O delegado acordou suando, como se tivesse dormido dentro de uma xícara de chá. Vestiu-se com gravata de listras diagonais e foi direto ao lugar mais improvável: o antigo sanatório desativado, onde hoje só moravam silêncios.

Lá, encontrou um homem coberto de papel-alumínio, que dizia se chamar Egon, e afirmava que os espelhos tinham fugido.

— Eles se rebelaram, delegado. Cansaram de ver o que não queriam. Reuniram suas imagens e foram embora. Não sou eu que digo, são eles — disse Egon, apontando para um espelho invisível na parede.

Antunes, que nunca descartava um delírio como pista, coletou digitais do ar. Literalmente. E então percebeu: as digitais não estavam em superfícies. Elas flutuavam.

Era um rastro.

Seguiu-o até uma clareira onde as árvores refletiam, mesmo sem espelhos. Lá estavam eles — todos os espelhos da cidade — empilhados em um círculo, como numa convenção de almas-primas. Refletiam uns aos outros infinitamente, como se tivessem encontrado a única coisa que queriam ver: a si mesmos.

E ali, no centro do espelho principal, viu-se uma digital perfeita — marcada como cicatriz na superfície do vidro.

— De quem é? — perguntou o delegado ao perito, que tinha chegado bufando, trazendo consigo a base de dados da Interpol, do Google e do além.

A resposta foi desconcertante:

— É sua, delegado. Essa digital é sua.

Antunes fitou o espelho. E o espelho, com um estalo, devolveu seu reflexo. Só que o reflexo piscava de modo invertido. No lugar do bigode, havia uma sombra. No lugar da gravata, uma serpente.

Então entendeu.

Antunes havia solucionado o crime, mas também o cometido.

Ao investigar o desaparecimento dos espelhos, ele havia deixado em cada um deles uma impressão: de dúvida, de obsessão, de identidade fraturada. Cada toque, cada pergunta, cada olhar… havia deixado algo nos espelhos. Eles fugiram dele. Ou melhor, dele mesmo.

Fechando o caderno de anotações invisíveis, Antunes deixou a clareira. Os espelhos ficaram. O mistério, também. Mas a cidade, aos poucos, voltou ao normal. Com novos espelhos. E novos reflexos.

Só Antunes sabia que, toda vez que se olhava no espelho, não via a si mesmo. Mas a digital que o incriminava — a prova definitiva de que a verdade é, às vezes, apenas um reflexo que decidiu fugir.

Este é um conto, portanto ficção.