
Sexta-feira 13 em São Carlos
Dizem que toda cidade tem seus fantasmas.
Mas em São Carlos, alguns deles parecem não aceitar o esquecimento.
Na véspera de uma Sexta-feira 13, a cidade respira um silêncio estranho. Não é o silêncio da madrugada comum, mas aquele silêncio pesado, que parece observar quem passa.
Foi numa noite assim que eu decidi atravessar dois lugares que os mais velhos sempre evitam.
O primeiro era o cruzamento da Rua Totó Leite com a Avenida Comendador Alfredo Maffei.
Antigamente ali existia o chamado Matagal de Santo Antônio.
Os mais antigos contam que quem atravessava aquele trecho sentia algo o cercando. Não era gente. Não era bicho. Era o Corpo Seco.
Um morto que a terra recusou.
Diziam que ele aparecia como um esqueleto ainda coberto de pele escura, esticada, ressequida. Não caminhava. Apenas surgia. E ficava ali, impedindo a passagem, como se guardasse algo que ninguém devia encontrar.
Quando cheguei ao cruzamento, o trânsito já tinha cessado. Só havia a iluminação amarela dos postes e o vento passando pelas árvores.
Eu ri da minha própria tensão.
Até ouvir passos.
Secos.
Lentos.
— Não atravessa…
A voz veio de lugar nenhum. Ou de todos os lugares ao mesmo tempo.
Olhei ao redor.
E então percebi algo parado no meio da rua.
Magro demais para ser uma pessoa.
Imóvel demais para ser uma sombra.
Quando o poste acima dele piscou, vi o rosto.
Ou melhor… o que restava dele.
Caveira. Pele grudada. Olhos fundos, como se a própria noite morasse ali dentro.
O Corpo Seco.
Não gritei. Não corri.
Fiquei parado, porque havia algo ainda mais estranho: ele não parecia me ameaçar.
Parecia me avisar.
Lentamente, levantou um braço esquelético… e apontou para o centro da cidade.
Para outro cruzamento.
O da Rua Major José Inácio com a Rua Ruy Barbosa.
Então ele desapareceu.
Não sumiu como um fantasma em filmes.
Simplesmente… deixou de existir.
E eu, contra toda lógica, fui até lá.
O centro estava vazio.
Era estranho imaginar que ali, onde hoje existem prédios e lojas, já existiu a casa de uma moça famosa por sua beleza e por sua teimosia.
Filha de um homem respeitado.
E que, certa vez, decidiu fazer um baile de carnaval justamente numa Sexta-feira Santa.
Os pais imploraram para que cancelasse.
Ela riu.
Às nove da noite, a casa estava cheia.
E foi então que ele apareceu.
Elegante.
Chapéu escuro.
Esporas brilhando.
Um homem perfeito.
Perfeito demais.
Passei pelo cruzamento e senti um frio subir pelas costas.
Então ouvi música.
Uma música distante.
Um antigo salão de baile.
Risos.
Sapatos deslizando no chão.
Quando olhei ao redor… o cruzamento não estava mais vazio.
A rua havia desaparecido.
No lugar dela havia uma sala iluminada por candelabros.
Vestidos rodavam.
Homens dançavam.
E no centro da sala estava ela.
A moça da lenda.
Linda.
Sorrindo.
E dançando com ele.
O homem do chapéu.
Eles rodavam, rodavam e rodavam.
Até que ela parou.
Talvez sentindo minha presença.
Ele também parou.
E então… lentamente… levantou o chapéu.
Duas sombras pontiagudas surgiram na testa.
Chifres.
Os convidados começaram a gritar.
Cadeiras caíram.
Gente correndo.
A moça ficou imóvel, encarando aquilo que tinha escolhido para dançar.
O homem virou o rosto… e olhou diretamente para mim.
Mesmo eu não estando ali.
Mesmo eu sendo apenas um espectador daquela memória.
Ele sorriu.
Um sorriso impossível.
E então disse algo.
Não para ela.
Para mim.
— Você também veio dançar?
O salão desapareceu.
As ruas voltaram.
O cruzamento estava vazio outra vez.
Mas havia algo no chão.
Marcas.
Marcas profundas no asfalto.
Como se esporas tivessem arranhado a rua.
E quando olhei para trás…
Lá na outra esquina…
Algo estava parado.
Observando.
Magro.
Seco.
O Corpo Seco.
Como se ainda tentasse impedir que alguém atravessasse para o outro lado.
Porque talvez…
Depois de certas ruas…
Não exista caminho de volta.
E amanhã…
é sexta-feira 13. 👁️









