As visitas não que iam embora de uma casa no Santa Felícia

Elas estavam por lá....

Por Frida Fernandes

No começo foi até reconfortante.  Afinal, não estava mais sozinha em casa aqui no Santa Felícia.

Depois da morte de toda a família num acidente, se revoltou.  A gravidade dos ferimentos foi tão grande que o caixão precisou ficar fechado.  Sem ver o rosto de quem lhe era mais caro, sem poder dizer adeus da forma correta, sem poder depositar um beijo na testa de cada um.  Pai, mãe e irmã mais velha.  Por que se negara a viajar junto com a família? Ela sentia que devia estar naquele carro  também, devia ter morrido quando o caminhão que vinha no sentido contrário colocou fim em tudo.

Mas, não.

Ao contrário: Deus a havia poupado do túmulo para que vivesse como que num sepulcro, dentro de casa, despida de qualquer naco de prazer ou alegria.

Por isso até achou graça quando as coisas mudavam de lugar. Primeiro foi o cinzeiro. Uma peça de vidro em tom marrom. Horrível.  Mas que fora útil nos últimos meses… o tabagismo foi uma fuga.  Tinha certeza que havia deixado na mesinha de centro só que apareceu ao lado da pia do banheiro.

Depois as chaves, o pingente da bisavó – herança de família!, o porta retrato do aparador do corredor insistia em ficar sobre a cama.  A foto com todos vivos e sorridentes, por mais de três vezes, aparecera misteriosamente ao lado do travesseiro.

Passou pela cabeça que poderia ser algum recado de seus mortos.  Do além túmulo estariam mandando mensagens?

Até que um dia teve a certeza de que não se tratava disso.  Sentada na espreguiçadeira da varanda, olhando para o horizonte, com a cabeça vazia de pensamentos teve a impressão de ver uma criança correndo pela sala.

Tomou um susto.

Virou tão rápido para ver o que era que até se sentiu mal.

Daí em diante, eram risadinhas pelos cantos, fru-fru de saias longas vindo do corredor, um vento frio que gelava para depois a temperatura voltar ao normal.

Enfim, a casa estava viva de novo e seus sentimentos foram convidando e permitindo que os visitantes invisíveis fossem ficando cada vez mais à vontade.

Os eventos sobrenaturais se tornaram frequentes.

Aquela madrugada estava especialmente vazia.  Silenciosa.  Sem nenhum ruído.  Não em entendia por quê havia acordado tão subitamente.  Olhou no relógio ao lado da cama.  Três da manhã em ponto.

Quando acordou na manhã seguinte não deu importância, mas a sensação de que havia algo errado a incomodou durante todas as horas do dia.

Na madrugada seguinte, novamente. Três da manhã. E assim se repetiu aquela insônia com hora marcada por muitas e muitas vezes. Só que o despertar ia ficando cada vez mais aflitivo.

Começou a sentir mãos balançando seus ombros, como que alguém a lhe acordar para algo importante.  Aí vieram os gritos.  Hora vindos da cozinha, hora da sala, às vezes a impressão era de que havia alguém desesperado por socorro dentro do quarto.

Não conseguia mais dormir.  Se não eram as visitas invisíveis que a acordavam pontualmente, era seu relógio biológico que se acostumou com a rotina dos mortos.

Nada mais parava no lugar.  Agora até os móveis eram invertidos. Sofá, cadeiras, até a estante centenária de madeira de lei apareciam onde não deveriam estar.

Conviveu com aquelas presenças invisíveis por anos e anos.

Já era velhinha quando morreu. Ninguém soube o motivo, se doença do corpo ou fantasmas da mente.

O fato é que até hoje nenhuma pessoa viva tornou a pôr os pés naquela casa.  Há quem jure por Deus que às três da manhã em ponto é possível ver pela janela da frente uma mulher empurrando móveis pela sala principal.

 

 

 

*Essa é uma obra de ficção