Até que a morte os separou na Vila Nery

Na Vila Nery, o tempo tinha outro jeito de andar. Não corria: respirava. Caminhava no ritmo do café passado toda manhã por Angélica e do passo apressado de Joel descendo a rua, vendedor de loja, sempre com o mundo nos ombros e um sorriso que fingia leveza.

Eles começaram nos anos 80, num encontro de jovens na Catedral. O amor veio simples, como quem encontra água depois de uma longa sede. Não houve promessas grandiosas, apenas a decisão silenciosa de caminhar juntos. E foi assim: café junto, almoço junto, jantar junto. Até o silêncio era compartilhado.

Joel vendia sonhos embrulhados em prestações, Angélica transformava açúcar em esperança. Seus doces não eram só para vender; eram para segurar a casa em pé quando o dinheiro faltava. A falta nunca venceu, porque eles respondiam com trabalho, fé e riso. Corriam contra o mundo, mas sempre de mãos dadas, mesmo quando não percebiam.

O sobrado onde moravam parecia vivo. Rangia como quem conta histórias, respirava como quem guarda segredos. As paredes conheciam as risadas, os choros, as noites em claro por causa de contas atrasadas e as manhãs luminosas quando tudo parecia possível outra vez.

Ninguém sabia, mas Joel carregava no peito um relógio quebrado. Uma cardiopatia que ele nunca contou a Angélica, talvez por amor, talvez por medo, talvez por achar que o amor fosse suficiente para consertar qualquer falha do corpo. E foi esse coração silencioso que, numa tarde comum, decidiu parar.

A escada do sobrado, que tantas vezes ouvira seus passos apressados, tornou-se testemunha do instante em que o mundo se recolheu para ele.

Angélica chegou pouco depois. Trazia nas mãos pequenos enfeites comprados na rua, delicados, frágeis, como se fossem promessas de um domingo mais bonito. Abriu a porta com a mesma pressa de sempre, pensando no café que ainda fariam juntos, no doce que precisava terminar, no jantar que já estava sendo planejado em sua cabeça.

Mas a casa estava diferente. Silenciosa demais.

Quando seus olhos encontraram Joel, o tempo da Vila Nery parou de respirar. O amor que sempre fora chão virou vertigem. Seu coração, que passara décadas batendo no ritmo do dele, esqueceu como continuar sozinho. As mãos se abriram, os enfeites caíram, o som do vidro quebrando foi como um último sino anunciando que duas vidas estavam se despedindo ao mesmo tempo, embora separadas por apenas cinco minutos.

As vizinhas ouviram o estrondo e depois o silêncio. Um silêncio pesado, quase sagrado.

Dizem que, naquele instante, algo surreal aconteceu: o sobrado suspirou, a escada perdeu a memória dos passos, o café que nunca mais seria passado esfriou para sempre no ar invisível da casa. A Vila Nery inteira pareceu inclinar a cabeça em respeito.

Joel e Angélica não morreram separados. Apenas chegaram em tempos diferentes ao mesmo lugar. Cinco minutos, que no relógio são quase nada, mas que no amor eram o suficiente para mostrar que nem a morte conseguia quebrar o pacto que eles haviam feito décadas antes, na Catedral, quando decidiram caminhar juntos.

Naquele dia, o mundo perdeu dois corpos, mas ganhou uma história que continua viva em cada café dividido, em cada casal que insiste, em cada casa que ainda acredita que o amor pode, sim, desafiar até o fim do tempo.

E dizem também que, naquela noite, quem passou pela frente do sobrado sentiu um cheiro suave de café misturado com açúcar queimado, como se Angélica ainda estivesse na cozinha e Joel ainda estivesse chegando cansado do trabalho. Não era imaginação, era memória. A casa continuou repetindo o ritual deles, como se se recusasse a aceitar a separação. Porque há amores que não sabem morrer direito: eles apenas mudam de forma, viram lembrança no ar, viram silêncio que aquece, viram eternidade discreta. Joel e Angélica não partiram da Vila Nery; ficaram espalhados em cada detalhe, em cada esquina, em cada história de quem ainda acredita que viver a dois é um ato de coragem e que morrer juntos, mesmo com cinco minutos de diferença, é apenas o último gesto de um amor que nunca soube andar sozinho.

  • Baseado numa história contada por um familiar