Câmara discute: Quem pagará os leitos de UTI para COVID em São Carlos?

Palermo e Roselei durante a audiência

Essa é a grande pergunta. O município não consegue pagar sozinho o custeio dos leitos. Houve o desmantelamento da rede que estava montada na região e no resto do Estado de SP e que atendia COVID-19. A Santa Casa luta, segundo o que foi falado na audiência pública desta sexta, 21, para abrir pelo menos mais cinco leitos para o atendimento da COVID-19. Entretanto, faltam recursos na Prefeitura, ela não consegue custear tudo sozinha. O fim do leito COVID que pagava R$ 1,6 mil e que foi transformado em leito de UTI Geral com valor de R$ 600 é um calcanhar de Aquiles para a expansão de leitos. A COVID agora é classificada como uma doença, igual as outras, que precisa de isolamento.

A situação foi discutida na Câmara Municipal em uma audiência que contou com a direção do presidente da Casa, Roselei Françoso, do presidente da Comissão de Saúde, Lucão Fernandes, da vereador Raquel Auxiliadora, do vereador Paraná Filho, do vereador Sérgio Rocha e de representantes da Santa Casa, do Norden Hospital, do Hospital Universitário e da Unimed. O secretário de Saúde, Marcos Palermo, que inicialmente estava on-line pois participava do trabalho de transferência de pacientes nas UPAS foi às pressas para a Casa de Leis e também enfatizou que a prioridade é abrir leitos. Mas como? Essa é a questão.

O presidente do Comitê de Combate ao Coronavírus, o secretário de Planejamento, Luís Antonio Pagnone não participou da reunião porque estava em férias, seu assessor, Eduardo Moreira o representou e disse que conversava com Pagnone por WhatsApp.

Palermo

Marcos Palermo disse durante a audiência que a UPA da Vila Prado teve dia de superlotação nesta sexta, 21. Ele explicou que tem dois pacientes no Aracy, nove na Vila Prado e quatro na Santa Felícia. Destes, sete são COVID. Os demais são pessoas com várias doenças cardíacas, neurológicas, gástricas e outras. “Não conseguimos transferências para outros locais, a evolução da COVID, mesmo com pacientes com quadro de baixa complexidade, não nos permite mantê-los fora do isolamento, o protocolo da COVID pede isso”, ressaltou.

Palermo esteve reunido com as equipes das UPAS para ver o que é possível fazer com esse novo fluxo emergencial. O caos impera.

Convocado ao plenário da Câmara, o secretário Marcos Palermo, disse que a questão é da COVID em São Carlos é perguntar: “Os hospitais podem aumentar leitos? Há estrutura para fazer isso? E o custeio disso? Pedimos para o Governo do Estado não desmobilizar leitos, mas não foi assim, não querem pagar, parece que pagar vida é mais caro?!!”

O secretário disse que São Carlos não fechará UPAs para tratamento de COVID. “Quando montei o ginásio eu quase cai, tive um parecer desfavorável, mas hoje a estrutura está lá, não é o ideal, está ajudando, atende mais de mil pessoas por dia”, ressaltou.

Hoje, São Carlos precisa de leitos, mesmo que seja de enfermaria. “Vejam, o Ministério da Saúde está observando 4 milhões de contaminados pelo mundo, mas não faz nada!”, criticou.

Marcos Palermo prometeu que nesta semana, em caráter emergencial, devem ser abertos os centro de testagem para a COVID no Aracy e Santa Felícia.

Lucão

O presidente da Comissão de Saúde, Lucão Fernandes indagou: “O que estamos fazendo aqui hoje? Ninguém responde! Estivemos neste mesmo local no dia 6 de janeiro, a Comissão pediu uma reunião de trabalho com os hospitais, prefeitura e fizemos encaminhamentos. O que foi resolvido daquela reunião para essa? Não podemos ficar aqui fazendo reuniões e o povo morrendo, as pessoas estão revoltadas com a situação de São Carlos!”

Lucão perguntou quem são os irresponsáveis que mandaram fechar os leitos de UTIs e enfermarias. “Havia uma estrutura formada, foi diminuindo a COVID e os leitos foram desmontados, hoje ouvi um áudio falando que tem que abrir os leitos de UTIs, mas quem paga? Quem irá custear?”, pergunta.

O vereador disse que São Carlos não tem capacidade e recursos para custear este volume de pessoas que precisam de leitos de enfermaria e UTIS. “É hora do estado e união mais uma vez mandarem recursos para termos essas estruturas novamente”, falou.

Para Lucão, estão subestimando uma pandemia que matou 551 pessoas em São Carlos e mais de 600 mil em todo o Brasil. “Temos o poder de resolver os problemas? Estamos resolvendo? Ficou acordado no dia 6 de janeiro de aumentarmos leitos de UTI e enfermaria e quantos foram reativados? Quantos serão depois dessa reunião?”, indagou.

Ele lembrou dos pontos de testagem que foram prometidos no Aracy e Santa Felícia, mas que até agora nada foi feito. “Até um ponto pediátrico de atendimento, onde foi criado?”

Lucão pediu: “Precisamos dar um basta! Tem que ser um basta na tarde de hoje, a Prefeitura de São Carlos precisa dar um basta e voltar sua atenção para a saúde pública! Há pessoas na UPA implorando leito de UTI, enfermaria e a Prefeitura fala que não pode pagar hora extra!”

Foi defendido o pagamento de hora extra para os servidores e a extensão do atendimento nos horários das Unidades Básicas de Saúde. “Eu sei o quanto dói você acordar e não ver a pessoa que amou por 42 anos porque a perdeu para a COVID”, afirmou lembrando da esposa falecida que foi vítima da doença.

O ex-presidente da Câmara disse que o Hospital Universitário deveria abrir leitos de enfermaria para a COVID. Ele ressaltou que não adianta marcar reuniões que não resolvem nada. “Temos que bater na porta do Governo do Estado, precisamos buscar recursos, para a COVID, para cirurgias eletivas”, ponderou.

Lucão pediu para o povo não se aglomerar. “Não podem ver um churrasco, um aniversário, se aglomerando, parem! Estamos diante de uma pandemia, ninguém sabe como a variante ômicron agirá no seu organismo”, projetou.

O presidente da Casa, Roselei Françoso, disse que ninguém melhor que o Lucão poderia falar sobre o sentimento de perda da COVID-19. “Acho que o senhor conseguiu passar aquilo que realmente todos sentimos”, destacou.

Roselei explicou que falta planejamento para administrar São Carlos. “Se toma uma decisão hoje, depois outra amanhã, foi isso que sentimos na reunião da Santa Casa, o Lucão expressou o nosso sentimento, eu falei com todos da Prefeitura para que pudessem participar”, avaliou.

Santa Casa

O médico Roberto Muniz da Santa Casa disse que o hospital deverá ficar com 12 internados. Contudo, ele revelou um surto de COVID dentro do hospital e esse número deverá subir para 14.  O profissional explicou que a instituição foi voz ativa para não desmontar os leitos de UTI/COVID para São Carlos. Mas foram obrigados a seguir determinação do Governo Estadual e Federal. “Não sabemos se esta será a última onda ou não, temos que estar precavidos, passamos por um primeiro momento bastante difícil e agora temos leitos espalhados por hospitais menores que não são capazes de atender um paciente complicado”, esclarece.

Ele salientou que os pacientes internados hoje na Santa Casa são aqueles que precisam de tratamento de alta complexidade. Infelizmente, hoje o hospital tem 44 funcionários afastados. “O hospital está lotado, o esforço da Santa Casa não pode vir sozinho, vamos fazer nossa parte, mas não temos como arcar com a conta, queremos prestar mais serviços, inclusive para cirurgia eletiva e na emergência, mas temos que pactuar isso junto as autoridades, porém foi determinado o fim do leito COVID pelo governo, temos que aumentar a estrutura, mas necessitamos da ajuda de vocês”, explanou.

Com os profissionais afastados, são 44, a Santa Casa pretende abrir mais cinco leitos. “Até este momento, o governo passava R$ 1,6 mil para o paciente COVID, que custava no melhor momento da pandemia R$ 1,8 mil, agora o governo vai passar R$ 600 para o leito de UTI, como vou operacionalizar isso? Como faço daqui 30 dias?”

HU

Valéria Gabassa, representante do Hospital Universitário, disse que um dos grandes gargalos é a questão dos recursos humanos. O HU pediu a contratação de pelo menos 60 profissionais para o hospital.

Segundo ela, muitos pacientes que chegam ao HU não tem apenas COVID, mas sim outras doenças.

Hoje o HU tem 12 leitos pediátricos e tem duas crianças positivas internadas. “Não temos nenhuma retaguarda para pediatria, sendo que os únicos leitos de UTI são os da Santa Casa, as crianças estão ficando doentes por outros motivos e não apenas da COVID”, ressalta.

A profissional explicou que não teremos mais leitos COVID, a partir de 1 de fevereiro, mas sim leitos isolados como outras doenças. Não há mais o chamado leito para o Coronavírus.

Até o fechamento desta matéria a audiência ainda não havia terminado.