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O Casarão dos irmãos cegos da Conde do Pinhal e uma história de fé e saudade

O Casarão dos irmãos cegos da Conde do Pinhal e uma história de fé e saudade

O Casarão dos irmãos cegos da Conde do Pinhal e uma história de fé e saudade

A visão, dia desses, do velho casarão abandonado da Rua Conde do Pinhal, com um Fusquinha estacionado logo em frente, me remeteu aos anos 1970 e início dos 80, quando ali residia a família Penteado, formada por irmãos cegos, que estavam sob cuidados de uma sobrinha.

Com minha mãe, eu os visitava com frequência. Os saudosos seu Antonio e dona Marina eram os mais próximos. Particularmente seu Antonio, que perdeu a visão aos 20 anos quando iria ingressar nos estudos de Medicina. Ele passava o dia em oração e, em 1983, me emocionou ao contar sua história numa entrevista publicada em um jornal local com o título “A luz da fé, um exemplo de vida”.

Dizia ter se convertido quando, de seu quarto, ouviu a leitura, feita no mesmo momento na Catedral de São Carlos, do evangelho de São Marcos: “Que aproveita ao homem ganhar o mundo inteiro se perder a sua alma?”.

Meu pai era amigo da família, que conhecera por intermédio das irmãs Sacramentinas, antes mesmo de virmos morar em São Carlos. Visitar os “ceguinhos”, como eram carinhosamente chamados, no princípio da minha adolescência, era para mim quase como visitar um santuário.

Havia naquela casa uma atmosfera de silêncio, fé e acolhimento que ficou para sempre na memória. Para marcar a distância entre uma visita e outra, eu anotava a data num calendário na estante da sala.

Casarão: A história da família Penteado em São Carlos

O patriarca da família, João Manoel Campos Penteado, campineiro, viajou três dias a cavalo quando chegou a São Carlos do Pinhal, no século XIX.

Homem de posses e, mais tarde, Juiz de Paz, João Manoel chegou a pensar em montar uma casa de ferragens, mas desistiu da ideia e preferiu comprar a Fazenda São José, na divisa de São Carlos com Araraquara.

Casou-se duas vezes e, com a segunda mulher, sua sobrinha Maria Escolástica de Campos Camargo, teve dez filhos — quatro homens e seis mulheres. Cinco deles nasceram com problemas de visão: Antonio, José Mário, Marina, Maria Elisa e Ana.

Um registro necessário diante do velho casarão e daquele Fusquinha que me trouxe uma visão dos anos 70 e a lembrança de seu Antonio, dizendo que rezava por mim.

Por Cirilo Braga, jornalista e historiador de São Carlos.

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