Quem mora em São Carlos e presta atenção aos sons da cidade provavelmente já percebeu: com a chegada da primavera e as temperaturas mais elevadas, o canto das cigarras voltou a tomar conta das árvores, principalmente no final da tarde.
Em alguns pontos, basta o dia começar a terminar para uma cigarra iniciar o característico som estridente. Pouco depois, outras parecem responder e, em determinados locais, forma-se uma verdadeira “orquestra” natural.
Mas por que isso acontece justamente nesta época do ano? E por que elas parecem gostar tanto do final da tarde?
A explicação envolve o ciclo de vida desses insetos, temperatura e reprodução.
Por que as cigarras cantam?
O primeiro detalhe curioso é que o som que ouvimos não é produzido da mesma maneira que o canto de uma ave.
Nos machos das cigarras existem estruturas especializadas chamadas tímbalos, localizadas no abdômen. Elas vibram rapidamente e permitem a produção daquele som forte e característico que pode ser ouvido a uma distância considerável.
O canto tem principalmente uma função reprodutiva: os machos utilizam os sinais sonoros para atrair as fêmeas.
É justamente por isso que determinados períodos do ano podem ser especialmente barulhentos.
Primavera favorece atividade das cigarras
As cigarras passam uma parte significativa de seu ciclo de vida debaixo da terra. Durante a fase de ninfa, vivem no solo e se alimentam de fluidos obtidos das raízes das plantas.
Quando chegam ao momento adequado de seu desenvolvimento, deixam o solo e procuram troncos, galhos e outras superfícies onde realizam a muda para a fase adulta.
É daí que surgem aquelas conhecidas “cascas” de cigarra encontradas agarradas às árvores. Elas são o exoesqueleto abandonado pelo inseto durante a transformação.
Com condições ambientais favoráveis e a chegada do período de reprodução, os adultos tornam-se muito mais perceptíveis — principalmente por causa do som produzido pelos machos.
E por que elas cantam tanto no final da tarde?
A temperatura tem papel importante no comportamento das cigarras.
Como são animais ectotérmicos, sua atividade é fortemente influenciada pelas condições térmicas do ambiente. Em dias quentes de primavera, o final da tarde ainda pode apresentar temperaturas favoráveis à atividade desses insetos.
Além disso, o horário de maior atividade sonora varia entre as espécies. Enquanto algumas cigarras são mais ativas durante determinadas horas do dia, outras podem intensificar sua atividade próximo ao entardecer.
Isso ajuda a explicar uma cena bastante comum nesta época em São Carlos: depois de um dia quente, o sol começa a baixar e o som das cigarras aumenta nas árvores.
Parece que uma cigarra chama a outra
Há ainda um fenômeno que chama a atenção de quem está ouvindo.
Uma cigarra começa a cantar e, pouco depois, várias outras entram em atividade, produzindo um som muito mais intenso.
Não se trata exatamente de uma “conversa” como a humana. A atividade acústica faz parte da comunicação reprodutiva desses insetos e pode envolver diferentes indivíduos relativamente próximos, criando a impressão de um grande coro.
Em áreas arborizadas, o efeito pode ser ainda mais impressionante.
Cigarra não canta porque vai morrer
Uma das crenças populares mais conhecidas afirma que a cigarra canta até “estourar” e morrer.
Não é isso que acontece.
A casca encontrada presa aos troncos não é o corpo de uma cigarra que morreu depois de cantar. Trata-se do exoesqueleto deixado durante a muda, quando o inseto passa da fase de ninfa para a fase adulta.
A cigarra adulta sai dessa estrutura e segue seu ciclo, no qual a reprodução passa a ter papel central.
Um dos sons da primavera em São Carlos
O canto intenso que começa a ser percebido nas árvores de São Carlos, portanto, não significa uma invasão repentina desses insetos.
É um fenômeno associado ao ciclo natural das cigarras e às condições ambientais favoráveis à sua atividade.
Com a primavera, os dias mais quentes e o período de reprodução, o som volta a fazer parte da paisagem sonora da cidade.
Para algumas pessoas é barulho. Para outras, é quase um aviso da natureza de que os dias quentes estão de volta.
E quando várias cigarras começam a cantar juntas no final da tarde, São Carlos ganha uma das trilhas sonoras mais características da primavera.
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