Clarice, a mulher esquecida da Vila Nery

Clarice, a esquecida

Todo dia, sem faltar um, ela sentava no mesmo banco da Praça Brasil, ali na Vila Nery, em São Carlos. Chegava por volta das quatro da tarde, quando o sol começava a se inclinar, e o calor já dava uma trégua para o vento brincar entre as folhas das árvores. Carregava uma bolsa de tecido desbotada e uma expressão vaga — dessas que denunciam que o pensamento está longe. Muito longe.

Chamavam-na de Dona Clarice. Uns diziam que fora professora, outros, costureira. Havia até quem jurasse que ela havia vindo de outra cidade e que, na verdade, nem era Clarice. Mas ela atendia por esse nome, então ficou sendo.

Clarice esquecia. Começara com pequenos lapsos — o nome da vizinha, o endereço da farmácia, a receita do pão de queijo. Depois, os esquecimentos foram crescendo, engolindo datas, rostos, histórias. Um dia, esqueceu até o nome do marido, e ele já tinha morrido fazia anos.

A praça se tornou seu diário vivo. Lá, cada canto trazia um eco do que ela era. O banco em que se sentava era o mesmo onde, décadas antes, esperava o filho sair da escola industrial. A árvore mais alta, ela dizia, foi plantada no dia em que o neto nasceu — embora ninguém conseguisse confirmar. No pátio da praça, ali, ela jurava que dançara com o amor da vida dela, ao som de uma banda que só ela lembrava.

Mas o que fazia a praça especial era o que os outros faziam por ela.

As pessoas da vila, que a viam ali todo dia, passaram a trazer lembranças para Clarice. Dona Marlene, de uma casa nas imediações, levava fotos antigas e dizia: “Olha, Clarice, essa aqui é você no aniversário da cidade, lembra?” E ela sorria. Seu Tonho, o sorveteiro, contava que ela costurava vestidos para a esposa dele. “Você que fez o do nosso casamento, sabia?” E ela apertava os olhos, buscando um traço de memória no tecido do tempo.

Até as crianças entraram na dança. Vinham mostrar desenhos e perguntar se ela sabia o nome das flores. Clarice chutava nomes, e às vezes acertava. Outras vezes, inventava — e todo mundo ria.

A praça virou o álbum de Clarice. E, mesmo que a mente dela traísse, mesmo que as lembranças se apagassem como giz na lousa de uma escola antiga, ali ela era lembrada. Ali, ela era alguém.

E talvez seja isso que nos mantém de pé, mesmo quando a memória falha: a certeza de que existe um lugar onde a gente ainda vive, mesmo que só nos olhos dos outros.

No fim da tarde, quando o sino da igreja marcava seis horas, Clarice se levantava, despedia-se com um aceno lento e seguia devagar pela rua antiga. No dia seguinte, estaria lá de novo. No mesmo banco. À espera de se lembrar — ou, quem sabe, apenas de ser lembrada.