Coluna Alternativa A: A ciência que interessa

Testes são a saída/ Fernando Frazão

●  Por Glauco Keller Villas Boas

Em 2003, o diretor Alan Parker, eternizado no cinema por sua adaptação do álbum The Wall para as telonas com viagens visuais que davam formas e cores às músicas da banda inglesa Pink Floyd, faria uma de suas maiores obras: “A vida de David Gale” que, ironicamente, é um filme relativamente desconhecido do grande público.

David Gale é um professor de filosofia em uma conceituada universidade em Austin, capital do Texas, além de um fervoroso defensor de direitos civis que trava uma luta ferrenha contra a pena de morte no estado que mais leva condenados à execução no país. Acusado de estupro e de assassinato de uma colega de trabalho, David é sentenciado à execução e, apenas a três dias de sua morte, resolve contar a sua versão da história que é, basicamente, o roteiro do filme.

O diretor, após ouvir uma enormidade de juristas, religiosos e pesquisadores, propõe uma discussão profunda acerca da aplicação da pena de morte e de suas viabilidades e consequências.

Há, aparentemente, no filme duas interpretações plausíveis para que um estado opte pela aplicação de dar cabo da vida de um ser humano e ambas são baseadas na velha lei do Talião, encontrada em vários escritos das mais diversas sociedades, incluindo no Êxodo e no Levítico do Antigo Testamento na passagem “Olho por olho, dente por dente”.

A primeira razão, segundo especialistas, é simplesmente para retirar o criminoso da sociedade, não temporariamente, mas definitivamente, evitando-se, desta forma, o risco de uma eventual fuga, um novo crime e os custos de manutenção de um ser, considerado marginal à sociedade, vivo por muitos anos. Embora muitos discordem da prática, essa interpretação do ponto de vista econômico, e apenas por ele, é razoável.

Contudo, há uma segunda justificativa que, segundo vários estudos e dados, não se mantém: a de que a pena de morte diminui a criminalidade. Segundo essa interpretação, eventuais criminosos, ao estarem em um estado ou país em que a pena capital é aplicada não cometeriam mais seus supostos crimes, diminuindo-se, assim, a violência social. Os números, entretanto, não mostram o funcionamento desta prática. Em estados norte americanos como New York, Iowa ou Vermont, que há muito aboliram a pena de morte, os índices de criminalidade são bem inferiores àqueles de estados como o Texas ou Louisiana, onde a pena de morte faz parte do estatuto estadual e há execuções frequentes.

Segundo o direito penal romano, que difere em muitos aspectos do direito saxão usado nos Estados Unidos, a criminalidade não é reduzida em estados onde as punições são mais severas, pois, nenhum indivíduo comete qualquer crime achando que será pego, ainda que todos os indicativos demostrem o contrário. Tal fato vale desde uma simples cola escolar até um homicídio triplamente qualificado.

O ser humano, por sua racionalidade, vive em uma bolha (além das recentes da internet) que lhe impedem de imaginar o mundo sem que ele esteja presente. Por ser o único animal que tem consciência da própria morte, o ser humano enxerga-se de maneira distinta dos outros, levando às últimas consequências tal percepção e se colocando em riscos, afinal “Isso acontece com todo mundo, menos comigo”.

Assim, ao se achar diferente dos outros seres – e o é em muitos aspectos- , o indivíduo boicota a si mesmo, burlando leis, regras e práticas que, em sua visão, são adequadas a todos os sete bilhões de habitantes do planeta, menos a ele.

Burlar o sistema é a maneira de se considerar ainda mais especial. Daí vermos os noticiários televisivos trazerem frequentemente histórias de jovens que sofreram acidentes graves ao beber e dirigir, ou homens transarem sem preservativos, mesmo que os percentuais de contração de HIV estejam aumentando em todo o planeta.

Com o Covid-19 não é diferente. A roleta russa proposta pelo governo Bolsonaro ao sugerir o afrouxamento do isolamento é apoiada por muitos pela mesma razão que um criminoso em Houston atira em uma mulher grávida para roubar sua carteira, a crença de que, mesmo que todos alertem sobre as punições, sejam elas a pena de morte ou a contração do novo Coronavírus, “essas punições não chegarão até mim”. Como solucionar o problema? Mais uma vez com educação sobre empatia.

Ao ensinarmos o indivíduo que ele faz parte de um organismo chamado sociedade e que ele precisa, obrigatoriamente, ter empatia pelo seu semelhante, estaremos dando a ele a chance de olhar o mundo fora de sua bolha e, consequentemente, agir pensando, também, no próximo. Alguns chamam esta postura de Cristianismo verdadeiro, outros de sociologia da empatia, mas as nomenclaturas são infinitamente menores do que suas práticas. Infelizmente, para o Brasil, estamos longe de tais práticas educacionais como essa em todo o país e os exemplos que vêm do governo federal primam, em sua maioria, pelos deuses “economia” e “mercado” que, ironicamente, são, também, baseados em números, gráficos e dados científicos, mas cada um enxerga a ciência que melhor lhe convém.

 

 

  • O autor é professor e apresenta os Programas Alternativa A e Onda Esportiva.

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