Coluna Alternativa A: A COVID é só mais uma gripezinha

O vírus está por aí...

●  Por Glauco Keller Villas Boas

Há vários memes sobre 2020 circulando nos últimos quatro meses. Para mim, o melhor é um que diz que o ano propõe uma discussão com o número 13, supostamente de azar, o 666, supostamente do Diabo e acaba rindo, chamando os outros dois numerais de amadores.

De fato, a imprevisibilidade do ano de 2020 que, para alguns abre e para outros fecha a década, é algo quase que sem precedentes na história recente do mundo. A pandemia do COVID-19 (Corona Virus Disease-19) fez com que mudássemos hábitos, rotinas, práticas e relacionamentos, além de nos possibilitar a oportunidade de refletir a respeito da preservação da vida. Essa deveria estar acima de aspectos comerciais, sociais e esportivos, entre outros. Contudo, parece que não aprendemos nada com esta oportunidade.

As mortes dos brasileiros pela COVID-19 não são produto de uma interpretação pontual sobre o viver. O século XXI, já iniciado há duas décadas, trouxe consigo a relativização da morte e, por isso, os mais de 80 mil mortos e os mais de 120 mil por morrer pelo COVID parecem ser números que se esvaem no curso do tempo, na medida em que palavras como plateau, curva, sanitaristas e infectologistas começam a incomodar por seus excessos de aparições na TV e passam a perder espaço para reportagens sobre a abertura do comércio ou a volta dos campeonatos de futebol.

Caso cheguemos, e há fortes indícios de que chegaremos, a 200 mil mortes de fato, é como se todos os moradores de uma cidade do tamanho de São Carlos, simplesmente, sumissem do mapa. Nomes, histórias, famílias, sonhos e esperanças de muitas pessoas desapareceram e desaparecerão esquecidas sob números frios e covas coletivas.

Tal desinteresse pela vida e percepção de que, ao que parece, esta não tem o valor que todos sugerem, advém da ideia de que somos diferentes do restante da população. A consciência humana de que si mesma existe, já diria Descartes, faz com que nos achemos especiais e tenhamos, diferentemente dos animais, a consciência da morte que, infelizmente, por um aculturamento ocidental, parece atingir mais aos outros do que a nós mesmos. Por isso, achamos que podemos sair sem máscara, confraternizar em festas e desafiar o vírus: “Vai acontecer com o outro, mas não comigo”. A bolha individual faz com que nos achemos imunes aos males da vida.

Na década de 1990, importando um modelo de jornalismo estadunidense, o SBT trouxe ao Brasil o telejornal Aqui Agora. O formato de Hard News que implica em notícias rápidas, agudas, impactantes e sangrentas em sua maioria, levava para as telas brasileiras aquilo que só conhecíamos através do rádio, dos jornais policiais municipais e pelas notas policiais de periódicos impressos, como o antigo, Notícias Populares.

Potencializados pela desculpa de que estavam ajudando a desvendar crimes, repórteres como Gil Gomes, tornaram-se especialistas em narrar crimes hediondos, estupros e latrocínios de forma longa e real, trazendo a morte, através dos textos verbal e imagético, lentamente para dentro de nossas casas. As narrativas novelescas, obviamente, eram e são em sua maioria tragédias dos subúrbios e periferias do país. Marcelo Rezende, José Luiz Datena e outros se aproveitaram da curiosidade e fascínio gerados pela violência e pela morte e, junto de tantos jornalistas, trilharam o caminho da banalização da morte pelo país afora, tornando o jovem negro de boné um criminoso em potencial em todo o Brasil. O “Mineirinho”, do conto da Clarice Lispector, tornava-se, de fato, inimigo geral da nação.

A aceitação pela morte às 18h na TV foi tamanha que famílias inteiras passaram a jantar vendo exumações de corpos e perseguições policiais na telinha. O helicóptero da emissora passou a ajudar no combate ao crime e o corpo de um motociclista estendido na Marginal Pinheiros deixava de chocar o “cidadão de bem” do Brasil, pois seu sangue começava a cativar e a viciar o brasileiro. Em pouco menos de uma década, estávamos tão acostumados com a morte que a recebíamos de braços abertos em nossas casas como um membro da família que chegava de uma viagem distante. O vício pela violência fazia com que pedíssemos sempre mais e sentíssemos um misto de pavor e adrenalina que nos exigia cada vez uma dose maior. Não importavam mais os esforços de alguns governantes em educação, práticas democráticas de respeito à vida e conscientização dos jovens. Já não havia mais tempo para a percepção de que os índices de criminalidade cairiam com redução de desigualdades, afinal, se houvesse um único crime, este seria narrado e discutido à exaustão por horas afins, como num filme “noir” fazendo com que tivéssemos a percepção de que a violência só aumentava. Não havia mais argumento ou tentativa vã de dizer que ao longo da Idade Média e de outros momentos de nossa história, as civilizações foram muito mais violentas do que somos hoje em dia e que a vida era algo a ser cultivado dia a dia. Agora, o bem material tinha maior valor, afinal, como disse o economista argentino Ricardo Aronskind “Se matar para roubar um celular é crime, mas matar para recuperá-lo não é, o que está proibido não é matar, mas sim violar a propriedade privada. O sagrado não é a vida e sim a propriedade privada”.

É por isso que dá para entender o porquê o brasileiro médio acha, como seu presidente, que a COVID-19 é uma gripezinha e que a roda comercial e mercadológica não pode parar. A vida no Brasil, há tempos, está banalizada. Não começou agora. Os prováveis 200 mil mortos serão reflexo de um modelo de sociedade que escolhemos há décadas. Um modelo que prioriza a repressão em detrimento da educação, um sistema que desvaloriza as histórias de vida, os sonhos e as esperanças das pessoas ao valorizar o que temos e não o que somos. As vidas, já há muito tempo no Brasil, são apenas números e números são apenas números. A roda gira. A arma tá na mão. A TV tá ligada. A rede social ativada e o sangue escorrendo relativizado. A COVID é sim só mais uma gripezinha no gigantesco processo de banalização da morte que vivemos.

  • O autor é professor e apresenta os Programas Alternativa A e Onda Esportiva.

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