Coluna Alternativa A: A reapropriação da “amarelinha”

Brasil: a reapropriação da amarelinha (Foto: Lucas Figueiredo/CBF/Divulgação)
  • Por Glauco Keller Villas Boas

A icônica camisa amarela da seleção brasileira passou a ser adotada após a derrota para o Uruguai na final da Copa de 50. Jogando de branco, o escrete brasileiro perdeu aquele que seria seu primeiro título mundial em uma história contada muitas vezes e de muitas maneiras por jornalistas, ex-jogadores e apreciadores do futebol.

A derrota deu, ou devolveu, ao Brasil o que o jornalista Nelson Rodrigues classificou como “síndrome do vira-lata”. Havíamos nascido para perder. Teríamos que aceitar nosso lugar comum nas prateleiras de competições mundiais, fossem elas esportivas ou não. Procuramos culpados e Barbosa, o goleiro negro da seleção, foi rapidamente encontrado e condenado a pena perpétua.

Após um concurso realizado em 1953 para a criação de um novo uniforme para a seleção brasileira, o jornalista e escritor Aldyr Garcia Schlee, que na época trabalhava com desenhista para um jornal local de Pelotas, nos brindou com o novo uniforme da seleção. A cor amarelo ouro passava a simbolizar a equipe brasileira.

A vitória na Copa de 1958, o surgimento de Pelé e a aparição de uma nova forma de jogar futebol que privilegiava o improviso e o drible, em detrimento de conceitos táticos, mostrava ao mundo que a seleção brasileira ditaria os padrões e conceitos do jogo a partir dali. A Bossa Nova surgia com “Chega de Saudade”, de João Gilberto e a “Garota de Ipanema”, de Tom Jobim e um novo tempo com Juscelino Kubitschek e a construção de Brasília se anunciava. Cinquenta anos em cinco. Euforia.

Para os supersticiosos, contudo, a vitória aconteceu por conta da camisa amarela, adotada a partir de então e que foi usada em todas as partidas da Copa, exceto a final, pois a dias da última partida os brasileiros foram informados de que os Suecos, donos da casa, jogariam de amarelo, cor de sua seleção até os dias atuais. Pegos de surpresa, os dirigentes correram para o comércio local, compraram camisas azuis e costuraram números nas costas. Ironicamente, nosso primeiro campeonato mundial não veio com a “amarelinha”.

Símbolo da seleção a partir de então, a camisa amarela passou rapidamente a ser sinônimo de orgulho para os brasileiros, especialmente após os dois outros campeonatos mundiais, de 1962 e de 1970.

Infelizmente, entretanto, um dos maiores símbolos nacionais pertence a uma entidade particular, a CBF, que detém todos os direitos sobre a seleção brasileira. Com contratos milionários que vão desde patrocínios questionáveis até jogos fora do país em locais gramados com marcação de futebol americano, a Confederação Brasileira de Futebol vem, através de mandos e desmandos, usando a simbologia do futebol brasileiro para enriquecer-se lícita e ilicitamente. São inúmeras as denúncias de corrupção no órgão que teve dois de seus ex-presidentes, Ricardo Teixeira e José Maria Marín, acusados e condenados por corrupção.

Durante os protestos pró-impeachment da, então presidenta, Dilma Rousseff, os manifestantes, numa tentativa ufanista e policarpeana de contraporem-se a ideia do vermelho do Partido dos Trabalhadores, adotaram a cor amarela como símbolo do fim da corrupção.

Contudo, embora o amarelo esteja em nossa bandeira, não é uma cor comum no vestuário do brasileiro e as poucas camisetas amarelas que aqueles que se propuseram em ir às ruas tinham em casa eram camisas da seleção brasileira. Pronto. Política e futebol mais uma vez se misturavam.

Com a prisão do ex-presidente Lula para que não disputasse às eleições de 2018 e o anti-petismo aflorado na pele do brasileiro, os Bolsonaristas rapidamente se apoderaram da camisa da seleção e passaram a vender a ideia de que “nossa bandeira jamais será vermelha”. A facada, o mau-caratismo e a falta de educação política de muitos levaram Bolsonaro à presidência e o resto da história nós já sabemos. Caos, anti-cientificismo, negacionismo, queimadas, desmatamento, dólar e gasolina a R$ 6,00 e milhares de vidas perdidas pela pandemia da COVID-19.

O anúncio da realização da Copa América no Brasil, após a rejeição das duas sedes iniciais, Colômbia e Argentina, fez com que o escárnio fosse tanto que, pasmem, alguns atletas da seleção brasileira que atuam no exterior manifestassem a intenção de não jogar a competição. A razão, aparentemente ainda é desconhecida. Não se sabe se é por pressão internacional ou por simplesmente desejarem estar em férias e encontrarem o álibi perfeito, mas o fato é que, caso a seleção, ou alguns jogadores, não jogue a Copa América em protesto pelas vidas perdidas na pandemia, todos nós teremos a chance de nos reapropriarmos da camisa amarela da seleção brasileira.

Tite e seus comandados têm em mãos uma árdua missão que pode se tornar histórica e, como a democracia corinthiana, perpetuar-se no ideário das pessoas como um marco político no futebol brasileiro e mundial.

Caso isso aconteça e, se em 2022, o resultado das eleições enxotarem Bolsonaro e seus comparsas do Palácio do Planalto, posso até pensar a voltar a usar a camisa amarela da seleção. Claro, numa versão alternativa de camelô, pois não dá para pagar R$ 450,00 numa camisa da CBF. Camisa oficial só pra quem vai de carro importado a protesto a favor do Bolsonaro.