Coluna Alternativa A: A verdade é o que interessa

●  Por Glauco Keller Villas Boas

Tudo é questão de perspectiva, de interesse e de narrativa. Todos já ouviram falar que a história é contada pelos vencedores. Heróis e vilões são criados a partir de um olhar. Duque de Caxias, Patrono das Forças Armadas brasileiras, é o herói maior para os militares, mas foi vilão para milhares de pessoas da Balaiada, no Maranhão. Pacificador para história oficial, genocida para a extraoficial.

Umberto Eco falou há alguns anos que a “a internet deu voz aos idiotas”. Costumo dizer que ser idiota está em moda e que vivemos um momento em que o que falamos e argumentamos não é importante. O que vale é a forma. Se gritar e xingar, ganha votos. Se for educado e argumentar, perde. Chamo o momento atual de “parnasianismo político”.

Nesse sentido, fake (falso) news (notícia) deixou de ser simplesmente algo que denota equívoco. As notícias falsas de que falamos são fraudulentas e visam agredir, ofender ou desabonar a honra de alguém. Possuem o agravante do dolo, a intenção do crime. Não são apenas culposas.

Turbinadas por robôs, algoritmos entre outros fatores, as fake news levaram Trump e Bolsonaro às presidências dos EUA e do Brasil, respectivamente. Finalmente, ainda que de maneira tardia, as instituições democráticas começam a tentar combatê-las: STF, Polícia Federal e até mesmo, pasmem, o Congresso Nacional parecem olhar para o tema com certo interesse.

Mas, independentemente do resultado dos inquéritos e investigações, vale lembrar que, além das fake news, precisamos pensar no conceito de pós-verdade. Pós-verdade é um neologismo que descreve a situação na qual, na hora de criar e modelar a opinião pública, os fatos objetivos têm menos influência que os apelos às emoções e às crenças pessoais, ou seja, se recebemos uma notícia que, sabemos por conhecimento ser falsa, mas esta está de acordo com nossas interpretações, nós a repassamos, independentemente de sua veracidade. Os fatos, nesse sentido, deixam de ser importantes, mas nosso interesse e nossas crenças pessoais fazem com que moldemos os fatos a nossa vontade de acordo com os nossos interesses.

Na cultura política, ela se denomina política da pós-verdade (ou política pós-factual), aquela na qual o debate se enquadra em apelos emocionais, desconectando-se dos detalhes da política pública, e pela reiterada afirmação de pontos de discussão nos quais as réplicas fáticas — os fatos — são ignoradas.

Convencer um brasileiro de que somos um país racista, por exemplo, apresentando dados e números de exclusão social, pobreza, e violência policial torna-se, sob esse ponto de vista, trabalho árduo, porque a mítica de que o “preto é criminoso” parece estar no subconsciente coletivo e o racismo e os preconceitos propagam-se através das conjunções adversativas: “Ah! Mas, o George Floyd era muito forte”, “Ah! Mas, por que ela estava usando aqueles shorts tão curto?

Agora, infelizmente, o preconceito encontra ressonância nas redes sociais e vê suas práticas escusas se propagarem através das notícias fraudulentas que se potencializam pela pós-verdade. Antes, dentro dos cursos de jornalismo dizia-se que “Notícia não é quando o cachorro morde o homem, mas quando o homem morde o cachorro”. Hoje, notícia deixou de ser o fato. Para a pós-verdade, notícia é tudo aquilo que me interessa repassar nas redes sociais. Nesse sentido, a interpretação da frase “a verdade é o que interessa” deve ser seguida de um pronome interrogativo preposicionado: “A quem?”

  • O autor é professor e apresenta os Programas Alternativa A e Onda Esportiva.

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Imagem de Krzysztof Pluta por Pixabay