Coluna Alternativa A: Amigas, amigos, amigues, amig@s e amigXs

  • Por Glauco Keller Villas Boas

Uma das grandes diferenças entre o homem racional e os animais irracionais é a produção de fala articulada para se comunicar. Se a linguagem é a simples capacidade de comunicação que pode ser não verbal (deliberada ou não deliberada) ou verbal, a língua é o código que determinado povo desenvolveu ao longo do tempo para se comunicar. Para isso, o homem faz uso da boca, da respiração, dos dentes, da língua e das pregas vocais, tendo passado a utilizar seu idioma na produção e transferência de cultura.

Se a comunicação é o fator principal da existência da língua, qualquer ruído, ausência de fluidez e clareza que nela aconteça irá, certamente, impedir a transmissão de uma informação.

A comunicação se dá, de maneira geral, através de um falante, um ouvinte, um meio (ar, internet, telefone etc), um fato a ser comunicado e o código (português, francês etc).

Nesse processo milenar, a língua se desenvolveu sempre da fala para a escrita. Primeiro o homem falou (fonemas), depois grafou símbolos (grafemas). Os dicionários de quaisquer idiomas se veem, desta forma, obrigados a aceitar termos que são usados pelas pessoas num processo vivo e mutável. As pessoas falam e, se os termos e as estruturas forem massificados e popularizados, a gramática normativa e o dicionário são obrigados a aceitá-los. Ou seja, por mais que as normas de um idioma tentem obrigar as pessoas a seguir regras, a comunicação é algo muito pessoal e o livre arbítrio nos permite falar e nos comunicar como queremos. Escolhemos a pronúncia desejada e produzimos as omissões que achamos justas, contanto que haja comunicação e falante e ouvinte se compreendam.

 Nesse sentido, as variantes linguísticas, dentro do contexto cultural da língua, mostram que esse código se altera mais do que pensamos. De tempos em tempos, as mudanças são evidentes. Ler um Machado de Assim é diferente de ler um Luis Fernando Veríssimo, por exemplo, e mais diferente ainda de ouvir o Racionais MC’s. De situação para situação, saímos da formalidade para a coloquialidade. Não falamos com nossos amigos da mesma maneira que nos dirigiríamos ao governador do estado. Até mesmo dentro das profissões verificamos vocábulos que são comuns e até específicos de determinadas áreas: medicina, informática e direito são grandes exemplos.

Mas, as tais variantes sociais também carregam consigo ideologias e preconceitos. Daí, é essencial perceber que a língua representa exatamente os valores de uma sociedade. Não é a língua que é preconceituosa, misógina, homofóbica ou racista. São, sim, as pessoas que a falam. Desta forma, é impossível separar a língua de quem a fala.

As redes sociais, nos últimos anos, têm possibilitado que os mais diversos argumentos sejam utilizados na hora de compor ou propor uma discussão sobre qualquer tema. Desde os movimentos Terraplanistas até os improváveis, mas verdadeiros protestos antivacina, é possível ver “achismos” tomarem lugar de ciência e conhecimento. Contudo, é, preciso notar que é também através da internet que a voz de algumas minorias, historicamente excluídas socialmente, começa a ganhar força em discussões, tais como a de compreender a língua como um fator cultural e social. Foi nessa arena que  os “pronomes neutros” se tornaram objeto de discórdia e desavenças linguísticas entre puristas, gramáticos normativos e aqueles que buscam colocar essa variante linguística social em lugar de maior destaque dentro da língua portuguesa. Mas, afinal, o que é a polêmica do pronome/substantivo/adjetivo neutro?

A Língua Portuguesa tem sua origem no Galego-Português, idioma falado na Península Ibérica que cobre Espanha e Portugal, países que há mais de 500 anos deram início à colonização das Américas Central e do Sul. O Galego-Português, por sua vez, se origina no Latim vulgar (língua falada na Roma antiga e em suas possessões por pessoas comuns, pelo povo). Nesse processo linguístico-temporal, o gênero neutro, comum em alguns idiomas de mesma origem (que possuem o alfabeto latino) perdeu-se ao chegar à língua portuguesa restando dele apenas alguns resquícios como nos pronomes indefinidos alguém ou ninguém.

Por questões culturais e semânticas, o nosso gênero neutro é o masculino, pois, como tantas outras sociedades, somos um povo machista e patriarcal e, desta forma, a língua é criatura e não criadora do problema, afinal reflete o pensar de seus falantes. Se estou, por exemplo, em uma sala de aula com cinco alunas (todas do sexo feminino), alguém poderá fazer referência a nossa turma como “eles”. Além disso, Deus é masculino e usamos a indeterminação nos substantivos, também, sob o prisma do artigo “O”. “Os alunos”, “os jovens” referindo-se a homens e mulheres.

Por força social e não de uso da linguagem, há um movimento que busca alterar tal configuração da Língua Portuguesa, trocando o masculino (de gênero neutro) para um gênero neutro de fato. Em vez de amigos (para fazer referência ao plural), usaríamos amigues, em vez de queridos, querides.

Vejo, particularmente, na discussão, alguns pontos importantes. Em primeiro lugar, o diálogo metalinguístico – o uso da língua para falar da própria língua. Como professor da área de linguagens, não dá para segurar o sorriso incontido ao ver o meu objeto de estudo tornar-se parte de um Corinthians x Palmeiras. Em segundo lugar, é bom ver as pessoas discutindo a língua para, na verdade, discutir a postura e o comportamento das próprias pessoas. O processo de argumentação é, nesse sentido, mais importante do que o próprio resultado dele que, pela lógica da língua, só será observado em alguns anos.

Observo, contudo, certa ingenuidade naqueles que buscam por imposição tornar obrigatório o uso desta ou daquela forma, afinal, a gramática normativa e as regras extenuantes da Língua Portuguesa têm tentado padronizar nossa maneira de falar e escrever faz séculos, sem êxito algum. Por isso, creio, só adotaremos o gênero neutro no pronome, no adjetivo ou no substantivo, caso as pessoas mudem sua forma de pensar e de produzir cultura.

Outro ponto que deve ser observado durante esse processo é o de que há uma nova língua portuguesa em vigor, oriunda da Internet, em especial das redes sociais, e que faz abreviações e contrações que picotam as palavras, mas que só servem para a língua escrita e não servem para a língua falada. Ninguém fala pq ou vc. Continuamos a falar por que e você. Esse processo é curioso e inovador para a língua, pois subverte seu processo histórico que sempre ocorreu da fala para a escrita (muito a contragosto da gramática normativa e dos conservadores), visto que agora estamos criando uma língua que pode ser escrita, mas não falada.

Historicamente, abreviamos na fala: Correndo torna-se /correnu/ e estava vira /tava/. Na hora de escrever, entretanto, tínhamos a percepção exata de que deveríamos formalizar um pouco a língua e, assim, respeitávamos mais as regras impostas pela “norma culta”. O problema é que a internet é, em grande parte, um ambiente informal e, portanto, a língua por assim dizer, tem também de sê-lo e o rebuliço está instaurado. Nesse ambiente, torna-se mais fácil grafar um gênero neutro como amigues, amig@s ou amigXs, afinal a língua é escrita. Para falar, contudo, o buraco é mais embaixo. Se meu interlocutor, ou interlocutora ou interlocuture não compreender o que estou dizendo, perde-se o mais importante, a informação, o fato e a transmissão de conhecimento e cultura fica prejudicada.

Assim, creio que devamos sempre estar atentos ao ambiente em que estamos usando a língua: formal, informal, profissional etc e como nosso interlocutor ou público sente-se confortável em ser tratado, assim como fazemos com os pronomes você e senhor ou você e senhora. Não há palavra sem contexto.

A discussão é muito válida e rica, mas deve ser realizada a partir de preceitos científicos, sociais e culturais e, acima de tudo, ser conduzida por especialistas para que não seja banalizada e se torne objeto de sátiras e politização. Não falar sobre ela dentro da escola denota ignorância e sério apetite por desconhecimento. As variantes linguísticas representam um fato e são, cada vez mais, exigidas pelos grandes vestibulares do país. Chegamos a um momento em que o bom falante não é mais aquele que domina apenas as regras da gramática normativa, mas aquele que conhece suas variações e sabe usá-las no tempo e contexto adequados.

O tempo dirá a nós falantes se fomos capazes de nos alterar e de nos descontruir e se isso teve reflexo na forma como fazemos uso do código que utilizamos para nos comunicar. Achar que mudar as regras do idioma vai tornar a população menos machista e misógina é tão ingênuo quanto pensar que todo brasileiro sabe análise sintática porque a gramática normativa assim o quer.

Imagem de Gerd Altmann por Pixabay