Coluna Alternativa A: Antropofagia culinária

* Por Glauco Keller Villas Boas

O famoso Manifesto Antropofágico publicado em 1928 por Oswald de Andrade – grande nome do Movimento Moderno e, talvez, o maior agitador cultural brasileiro do começo do século XX – pregava a criação de uma poesia brasileira de exportação que, segundo o próprio autor, fosse uma língua literária “não-catequizada”. Esteticamente, Oswald afirma no seu manifesto que “só a antropofagia nos une”, propondo “deglutir” o legado cultural europeu e “digeri-lo” sob a forma de uma arte tipicamente brasileira.

Embora sejamos uma pátria de muitas raças, cores e nações, fato que nos leva a equívocos históricos de nos intitularmos “democracia racial”, não há como se negar que o brasileiro tem uma capacidade ímpar de absorver valores estrangeiros e os abrasileirar. No final da década de 1960, os Tropicalistas apresentaram ao país uma sonoridade – com guitarra – que para muitos descaracterizava a brasilidade da MPB e da Bossa Nova, esta última, ironicamente, tendo em sua essência o jazz. Em 1968, no Terceiro Festival Internacional da Canção, Caetano Veloso apresentou “É proibido proibir” e, sob vaias, gritou “Vocês não estão entendendo nada”. E não estávamos mesmo. A música era brasileira, mas continha todo o planeta dentro dela.

Mesmo estando sob a batuta de um governo entreguista e acéfalo, que apregoa os valores estadunidenses como divinos e com um presidente que faz continência para a bandeira ianque, as mesclas culturais brasileiras são evidentes e inegáveis, para o bem e para mal. E na culinária esse fato não poderia ser diferente.

Pessoalmente me considero um pouco purista ao me alimentar. Talvez pelo fato de que almoçar ou jantar não sejam meus maiores prazeres, tendo a respeitar o simples e o básico na hora da mesa.

Em épocas de fim de ano se tornam mais evidentes as variações culinárias e a  influência estrangeira nos pratos preparados para a ceia. Ninguém chama mais a atenção do que a uva passa. Ela se integrou à culinária brasileira da época aparecendo, direto do Oriente Médio, para a alegria ou a tristeza de muitos, no arroz, na farofa e na maionese. Mas, esse não é um caso de antropofagia culinária.  Ainda que não seja aceita por muita gente, a uva passa segue certo ritual de aparecimentos e combinações. Não vemos uva passa na macarronada de domingo ou no bife acebolado.

Contudo, há exemplos claros de antropofagias que tenho muito orgulho de passar longe e, dentro dessas, encontram-se alguns sabores de pizzas muito comuns em rodízios. Que os italianos não nos ouçam, mas por aqui estamos servindo pizza de strogonoff, coraçãozinho, doritos, cachorro-quente e até de sorvete, na qual a massa serve, simplesmente, de aparato para que degustemos o gelato!

Nesse mesmo caminho surgiram os alimentos em potes que causam pânico no meu caro amigo Pedro Guilherme, o PG, que, ironicamente, é professor de literatura e, assim como eu, renega a antropofagia culinária, embora sinta muito mais prazer na frente de um prato. Seguindo a tradição estadunidense de comer enquanto se faz outra coisa, resolvemos que, para não sujar as mãos e ter a hercúlea tarefa de ir até a pia mais próxima e lavá-las, poderíamos “socar” a comida dentro de um pote e comê-la com garfo ou colher de plástico. São bolos que, ironicamente, são preparados e depois de prontos, culinária e esteticamente, são destruídos sem maiores pudores e enfiados dentro de um copo de plástico. Na mesma medida surgiu o cachorro quente de pote que, pelo menos, já é preparado dentro do recipiente, evitando o desprazer do bolo que, depois de feito é desfeito. Agora a NASA vem, diz o meme, ou, talvez, esteja esperando o sushi de pote com uvas passas, pois a pizza de sushi já foi inventada.

E, em épocas em que ser idiota está em moda, lembro-me da canção Apesar de você, do Chico Buarque que, embora tenha sido escrita em 1970 está mais atual do que nunca e, pasmem, tem versos que podem ser aplicados aos contextos culinários também. Se é pra desmoralizar tudo mesmo, eu sigo o PG na sua proposta de se acabar com o panetone, afinal, segundo ele, quando o chocotone foi inventado o panetone virou uma tecnologia ultrapassada, tipo um telefone fixo. Fruta cristalizada também não dá, hein. A comunidade árabe que me desculpe, mas “você que inventou a tristeza, ora tenha a fineza de desinventar…” Ah! E pra juntar toda a antropofagia em uma só, já inventaram o panetone de copo. Por essa, nem o Oswald esperava!

  • O autor é professor e apresenta os Programas Alternativa A e Onda Esportiva.
  • Imagem de Daniel Reche por Pixabay