Coluna Alternativa A: As partes de um conto

  • Por Glauco Keller Villas Boas

Por conta da pandemia da COVID-19 o mundo teve de se adequar a uma realidade diferente. Nunca tivemos tanto tempo com a gente mesmo. Ficar dentro de casa nos obrigou a viver em família (alguns pela primeira vez na vida) e a perceber quem somos afinal. Nossos gostos, ódios, desejos e anseios vieram à tona sem que pudéssemos fugir para o shopping, para o bar ou par a igreja para ignorá-los em paz.

Restou-nos conviver com nós mesmos e, nesse sentido, como já falei aqui em outra oportunidade, a arte nos resgatou da ruína e impossibilitou que nós definhássemos até a morte emocional ou física. Filmes, músicas, séries e livros salvaram almas em todo o mundo. No meu caso, o hábito da leitura foi preponderante.

Por conta da minha coluna Clube do Livro, na Rádio CBN, tenho, por obrigação, de ler um livro por semana, pois na terça, a jornalista Marina Lacerda irá me ligar e terei de apresentar as minhas impressões sobre a obra escolhida. Sabrina, minha mulher, outra leitora assídua, já me fez boníssimas indicações e duas delas são as assinaturas de dois clubes literários, a Intrínsecos e a Tag-experiências Literárias que nos proporcionam surpresas agradáveis todos os meses. O contato com as novidades editoriais e com novos autores nacionais e internacionais tornam-se adendos notáveis aos conhecidos clássicos.

Nesta semana, falei sobre uma coletânea de contos, especialmente produzida durante e pelo isolamento social. Se nossas bocas, narizes e mãos viraram partes do corpo que passaram a atrair os olhares de todos por conta do contágio, outras partes tiveram, como destaquei, nossa atenção pessoal. Nosso corpo foi nosso e não pudemos nos livrar dele.

Pois bem, a coletânea a que me refiro traz obras curiosas de contistas e cronistas renomados em todo o país: Mel Duarte, Antônio Prata, Jarid Arraes entre outros nos brindam com histórias sobre partes do corpo. A boca, o fígado, o pênis, a pele, um dedo polegar, um braço direito e o estômago tornam-se personagens, em alguns casos, e ganham voz e opinião em contos que abordam relacionamentos, sexualidade, política e religião. O livro, intitulado, Partes de um corpo, deve estar disponível para venda em breve e é uma boa pedida para, metaliguisticamente, usar o corpo para cuidar do próprio corpo. E, se como disse o escritor Ray Bradbury, destacado no belo prefácio de Socorro Acioli ao recomendar que devemos ler poesia todos os dias, destacando “Qualquer uma que arrepie os pelos dos seus braços”, ouso dizer o mesmo da prosa, afinal, se a internet e as redes sociais nos deram a chance de ver e de ouvir, o livro nos dá a chance de viajar para fora e para dentro de nós mesmos. E, se for impresso, também de cheirá-lo. Meu nariz adora cheiro de livro.

O autor é professor e jornalista.