Coluna Alternativa A: Cala a boca já morreu?

●  Por Glauco Keller Villas Boas  

Tenho a sensação de que o presidente Jair Bolsonaro é autoritário e de que não é muito afeito às democracias. Já tinha quando, em pleno Congresso Nacional, homenageou um dos maiores torturadores da história recente do Brasil e, ironicamente, não foi preso.

Contudo, há uma diferença entre o que pensa o cidadão Jair Bolsonaro e o que faz o Presidente da República. As bravatas diárias do Jair são réplicas de um pensamento retrógrado, ultrapassado e preconceituoso. Isso é fato. São admiradas apenas por seus apoiadores que, tenho a sensação – à exceção do tal Centrão ávido por cargos e emendas – estão diminuindo. Outra coisa é a suposta e recente crise institucional. Segundo o Ministro Luís Roberto Barroso, embora tenha gritado, reclamado e ofendido jornalistas, o Presidente da República não ousou descumprir qualquer ordem judicial a que foi exposto e exemplo disso foi o decreto de nomeação de Alexandre Ramagem para a Direção Geral da Polícia Federal que foi barrado pelo Ministro Alexandre de Moraes e cuja decisão foi respeitada pelo Governo.

Entretanto, tendo a pensar que Bolsonaro testa os limites das instituições durante todo o tempo. Gostaria de ser ditador e não pode, por isso estica o elástico da resiliência democrática ao extremo para, eventualmente, poder justificar um autogolpe e, seguindo os pedidos de alguns de seus apoiadores, fechar o Congresso e o STF. Para isso, contudo, precisa obrigatoriamente de duas coisas: apoio popular massivo e suporte das forças armadas e ninguém sabe ao certo se ele tem pelo menos um dos dois.

Acuado, Bolsonaro ataca jornalistas, ofende órgãos de imprensa e desrespeita o diálogo. O presidente não sabe ouvir. Não está acostumado a ter interlocutores que discordem dele. Quer, simplesmente, fazer sua vontade valer. Ao mesmo tempo, está visivelmente cansado e desgastado física e emocionalmente. Penso que o senhor Jair não tinha uma rotina tão árdua havia pelo menos trinta anos. Aposentou-se cedo. Foi um deputado sem projetos relevantes que fazia parte do chamado Baixo Clero (deputados menores de partidos nanicos que seguem a maré das emendas e nomeações de cargos). No Congresso, devia trabalhar muito pouco e sem um décimo da pressão, cansaço ou ansiedade oriundos das responsabilidades da Presidência da República. Agora está acuado, cansado e sem paciência para dialogar. Age da única forma que conhece: a violência autoritária. O grito. A ofensa.

Em meio, talvez, à maior crise sanitária da história do país, frente a uma recessão econômica gigantesca, com quase quinze milhões de desempregados, o Presidente da República grita, xinga e ofende. É o que sabe fazer. Não havia como esperar outra atitude. Por isso, os próximos dois anos trarão testes diários de limites e paciências de todos para que a democracia passe por mais essa prova.

Segundo a sabedoria científica, se colocarmos um sapo em uma banheira com água fervendo, o animal salta rapidamente para fora, buscando um local seguro e sua consequente sobrevivência. Se, entretanto, colocarmos o sapo em uma banheira com água fria e aumentarmos a temperatura da água gradativamente, um grau a cada meia-hora, o sapo morrerá queimado. Essa é a metáfora de fábula que vive, hoje, o país. Todos acham que a água está fria, mas não percebem que ela está esquentando diariamente através de gritos, agressões e violências de um pensamento intelectualmente limítrofe e mal-intencionado que só sabe dizer: cala a boca!

 

 

  • O autor é professor e apresenta os Programas Alternativa A e Onda Esportiva.

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