Coluna Alternativa A: Como nossos pais

Por Glauco Keller Villas Boas

Quando eu tinha quinze anos, queria deixar o cabelo crescer. Meu pai odiava a ideia. Odiava cabelos longos. Achava coisa de “viado”. Tinha sido educado a pensar assim. Com muito custo, consegui, em alguns momentos, deixar as madeixas maiores. Ingênuo, pensava: “quando eu tiver um filho, eu vou deixar ele ter cabelo comprido”.

Pela capacidade de fala, o homem é, ao que se sabe, o único animal que produz cultura e a transmite para seus descendentes. Cultura é aquilo que não é genético, a religião, os hábitos, o time de futebol, a arte, o trabalho remunerado etc. A cultura, com raras exceções, só é modificada pelo jovem. Dificilmente, – excetuando-se alguns gênios em todas as áreas, – veremos grandes novidades geradas por senhores ou senhoras de setenta anos de idade. Cabe, naturalmente, pela genética e pelos anos de hábitos, aos idosos serem mais conservadores. E, por favor, entendamos, conservadorismo como a tentativa de conservar as coisas como estão, sejam elas boas ou não para um grupo ou outro.

Já o jovem tem obrigação de renegar parte da cultura e dos hábitos dos seus pais. Se não fosse assim, ainda estaríamos mantendo os mesmos hábitos e tendo as mesmas opiniões de séculos atrás. O mundo muda através das mudanças juvenis. O rock’n’roll, a Semana de 22, o RAP, o jeans, as tatuagens, tudo mania de jovem.

Desta forma, o que meu filho adolescente irá querer é, justamente, algo que eu não posso conceder, para que a quebra aconteça. “Pai, está na moda. Todos estão cortando um pedaço da orelha, hoje em dia.” Para a minha geração, isso é inconcebível (destaque-se que, ao que se sabe, a exceção de algum povoado indígena que desconheço, cortar um pedaço da orelha não é moda entre os jovens, é apenas um exemplo do que eu não gostaria que meu filho fizesse).

Nesse sentido e retomando uma percepção que tenho do momento atual do Brasil e do mundo, há de se desfazer uma confusão muito frequente: é possível ser conservador politica ou ideologicamente e esteticamente revolucionário. Peguemos como exemplo as tatuagens. Consideradas criminosas durante os anos de chumbo no Brasil, hoje, são comuns em policiais militares e na elite financeira (não necessariamente intelectual) do país, maiores exemplos do conservadorismo político e ideológico.

O parnasianismo político em que vivemos permite que o conteúdo seja desprezado, dando lugar a uma forma que tem que vociferar guturalmente, ainda que não tenha argumentos para justificar seus gritos, mas pode vir travestida de novidade se vier da boca de um jovem tatuado, cheio de piercings e com jeans rasgados, ou seja, ironicamente, é possível ser um rebelde conservador e é, exatamente isso que, creio, muitos querem dizer quando falam que está em moda ser “idiota”. A idiotice atual é parnasiana, mas tem forma moderna. Dois polos que, supostamente se repelem.

E nesse sentido confundem-se, mais uma vez os conceitos de conservadorismo e modernidade sob a tutela das palavras revolução e reacionarismo. Revolução é todo intento que busca mudar o status quo; opõe-se, assim, ao conservadorismo que, ao renegar a mudança advinda da revolução, reage para se manter estático, gerando o reacionarismo. Por isso, o movimento cívico-militar que deu origem ao golpe de 1964 não pode ser chamado de Revolução, pois tinha como premissa primeira manter as coisas como elas “sempre foram”.

Raul Seixas, em uma de suas últimas gravações, escreveu, em 1989, junto de Marcelo Nova “Muita estrela, pouca constelação”.  A canção, gravada junto da banda Camisa de Vênus indica um sinal daquilo que estava por vir. Muita forma e pouco conteúdo.

E como a história é cíclica, não há como não lembrar outro gênio da MPB, Antonio Belchior que, há mais de quarenta anos, percebeu que a história, infelizmente, tende a se repetir, por mais que tentemos evitar. Em “Como nossos pais”, Belchior percebe que a juventude que queria mudança se transformara em tudo aquilo o que havia criticado. Mais atual impossível!

 

Minha dor é perceber
Que apesar de termos
Feito tudo o que fizemos
Ainda somos os mesmos
E vivemos
Ainda somos os mesmos
E vivemos
Como os nossos pais

Nossos ídolos ainda são os mesmos
E as aparências
Não enganam não
Você diz que depois deles
Não apareceu mais ninguém
Você pode até dizer
Que eu ‘tô por fora
Ou então que eu ‘tô inventando

Mas é você que ama o passado
E que não vê
É você que ama o passado
E que não vê
Que o novo sempre vem

Hoje eu sei que quem me deu a ideia
De uma nova consciência e juventude
‘Tá em casa
Guardado por deus
Contando vil metal

Minha dor é perceber
Que apesar de termos feito tudo, tudo
Tudo o que fizemos
Nós ainda somos os mesmos
E vivemos
Ainda somos os mesmos
E vivemos
Ainda somos os mesmos
E vivemos como os nossos pais

 

 

  • O autor é professor e apresenta os Programas Alternativa A e Onda Esportiva.

ALTERNATIVA A

ONDA ESPORTIVA

 

Foto: Arquivo Nacional