Coluna Alternativa A: Cortesia com o chapéu alheio

Futebol em discussão

●  Por Glauco Keller Villas Boas

As discussões acerca do monopólio das transmissões esportivas, entenda-se, futebolísticas no Brasil são antigas. É evidente que esse monopólio existe e que isso da à Rede Globo poderes quase plenos para versar sobre o horário e frequência dos jogos, tabela dos campeonatos entre outros tantos pormenores que não mais são decididos pelos promotores dos eventos, as Federações Estaduais, a CBF e os clubes, mas por quem tem os direitos de transmissão e paga muito bem por eles.

Obviamente, que os torcedores gostariam de ver outra emissora de TV transmitir jogos que não serão transmitidos pela Globo. Por exemplo, se Corinthians x Bragantino estão jogando no domingo às 16h e, no mesmo horário se enfrentam Palmeiras x Goiás, caso a Globo transmita um dos jogos, nenhuma outra emissora poderá transmitir o outro. Houve um tempo em que, por conta de uma parceria entre Globo e Band, a Rede Globo repassava os direitos – com custo – à Band e permitia que essa transmitisse o jogo que não lhe interessava, dando às transmissões dos campeonatos um aspecto um pouco mais democrático. Isso não mais acontece e temos de assistir ao jogo escolhido pela emissora que nem sempre é o melhor da rodada, pois há, agora os canais por assinatura como o Premiere que detém os direitos e, muitas vezes, têm prioridade na escolha dos jogos.

Aproximando-se do Governo Federal, em especial da figura de Jair Bolsonaro, o Flamengo conseguiu que o presidente editasse um decreto que permite ao clube mandante, e tão somente a ele, transmitir ou vender os direitos de transmissão de seus jogos. Baseado nesse decreto, o Flamengo iniciou um processo de transmissão dos jogos nos quais era mandante através da internet e logo na segunda partida, percebeu que havia se equivocado por algumas razões.

A primeira se da pelo fato de que a Globo paga bem para poder transmitir os jogos. Os clubes é que administram mal seus rendimentos. Mais de 30% da receita do clube rubro-negro em 2019 veio da venda dos direitos de transmissão. Fica a pergunta: será que o Flamengo conseguirá todo esse montante ao transmitir seus jogos pela TV Flamengo na internet? Não conseguirá, pois o torcedor flamenguista não está disposto a pagar 10 reais por partida e grande parte desses torcedores não tem acesso à rede com condições de acompanhar às partidas. A TV aberta, contudo, chega a 95% das casas dos brasileiros. Além disso, se o modelo de transmissão pela internet fosse melhor que a venda de direitos para a TV, os grandes clubes europeus assim o fariam. A exceção do Benfica, em Portugal, nenhum o faz. Nem Liverpool, Mancehester City, Real Madrid,  Barcelona ou Paris Saint-Germant!

Há quem diga que a tentativa do Flamengo era, de fato, conseguir vender os seus direitos de transmissão que, ironicamente, valeriam apenas para os jogos finais do Campeonato Carioca – 4 partidas no máximo – para outra emissora de TV, mas, nenhuma se interessou e o Clube de Regatas se viu obrigado a ter de gerar tecnologia de transmissão e recursos para tentar levar seus jogos a seus torcedores. Destaque-se que, gostemos ou não da emissora dos Marinho, a qualidade técnica dos profissionais envolvidos na transmissão, seja na produção, tecnologia ou narração, reportagens e comentários é de reconhecimento internacional. Exemplo disso foi a transmissão pífia da Record dos Jogos Olímpicos de 2012, em Londres, quando, após conseguir os direitos junto ao COI, Comitê Olímpico Internacional, pagando mais do que a Globo, a emissora dos bispos nos apresentou transmissões sem profissionais capacitados, com erros grosseiros que iam desde comerciais no meio do jogos, contagem erradas de pontos e cortes de câmaras que perderam momentos especiais da competição.

Em segundo lugar, o egoísmo flamenguista, que convenceu o senhor Jair Bolsonaro a emitir o decreto – no caso dele, pura e simplesmente por questões políticas e ideológicas com a Globo – , faz com que clubes menores do Rio de Janeiro e de todo o país corram o risco de nunca mais terem seus jogos transmitidos e, consequentemente, desaparecerem do mapa. Ou será a TV Madureira conseguirá transmitir os jogos da equipe carioca? Talvez a Volta Redonda TV consiga? Ou então a Rede Olaria?

Esse modelo, proposto e encampado pelo Flamengo só será bom para os grandes clubes que têm público suficiente para consumir suas próprias transmissões ou então vender seus direitos por um preço alto. Os pequenos estarão sem poder de barganha. Além disso, como farão os torcedores do Flamengo se a final do campeonato não for de mando do clube rubro-negro? Terão de assistir ao jogo em emissoras como a TV-Flu, do Fluminense, com narradores e comentaristas que nem se quer mencionam o nome dos jogadores do adversário e muitas vezes optam por não mostrar lances e replays de ataques dos oponentes em uma perda jornalística sem precedentes desde que o futebol virou objeto de transmissões no país.

Qual a solução, então? Continuar dependendo da Globo? Sim e não.

A solução é os clubes perceberem que precisam urgentemente se desprender da CBF que está apenas interessada na Seleção Brasileira, seu maior produto. A criação de uma liga é extremamente necessária para a profissionalização das administrações dos clubes. Só assim, Flamengo, Fluminense, Corinthians, Palmeiras e tantos outros grandes clubes brasileiros poderão vender um campeonato por um preço alto não só para o Brasil, mas para o mundo, ou será que todas as emissoras da América Latina não teriam interesse em comprar os direitos da Liga Brasil de Futebol? Será que na Europa, TVs italianas, francesas, inglesas ou espanholas não cresceriam os olhos para comprar os direitos de transmissão de nossa Liga Nacional para apreciar os futuros craques que jogarão em breve no Velho Continente?

Os lucros das equipes grandes seriam potencializados, pois a Globo teria de pagar mais por um produto melhor e até mesmo as equipes menores sairiam ganhando, afinal de contas apresentariam seus escudos, nomes e jogadores para o mundo. Ou alguém acha que o Coritiba conseguirá vender seus jogos para Colômbia ou para a Inglaterra sozinho?

Porém, enquanto a CBF lucra levando a seleção brasileira para jogar nos Emirados Árabes ou na China, os clubes brasileiros de maneira egoísta olham para os próprios umbigos querendo minguar as finanças de seus adversários e não batê-los em campo num espetáculo rentável para ambos. E quem ganha com isso? Ainda não consegui entender. O Flamengo teve prejuízo. A Globo também. O torcedor também. A CBF não está nem aí. E o Bolsonaro … Ah! Esse nem conta!

  • O autor é professor e apresenta os Programas Alternativa A e Onda Esportiva.

ALTERNATIVA A

ONDA ESPORTIVA

Os artigos assinados nas colunas refletem as opiniões dos autores e não do portal que se manifesta através de editoriais.