Coluna Alternativa A: Da desigualdade à guerra civil

●  Por Glauco Keller Villas Boas

Será que já nos perguntamos a razão de estarmos opondo dois conceitos que não representam uma dicotomia? Vida e economia parecem, desde o início da pandemia, separadas pela maior das conjunções adversativas quando, uma breve análise político-social, apontaria para a necessidade de preservação de vidas com a manutenção de algum dinheiro no bolso das pessoas.

Contudo, aqueles que argumentam em favor da abertura do comércio e dos serviços são induzidos por uma pequena parcela da sociedade brasileira (e mundial) que, por deter meios e cadeias de produção, querem a roda girando e por uma parcela ainda menor, que nem isso detém, mas a qual possui inúmeros recursos aplicados em ações e fundos dos mais variados e, portanto, quer o retorno imediato da cadeia produtiva, ainda que sanitaristas e especialistas em saúde em todo o mundo tenham alertado para os perigos do contágio, da infecção generalizada e da incapacidade dos sistemas de saúde em receber todos os pacientes com Covid-19. O medo agora está na segunda onda europeia.

Os mais de 50 mil mortos e os outros 100 mil esperados até o final do ano no Brasil não têm nome. São números que não podem atrapalhar os ganhos bilionários de uma pequena parcela da sociedade. A verdade é tão gritante que megaempresários dos mais variados setores, já na segunda ou terceira semana de confinamento, foram, sem qualquer pudor, às redes sociais expressar seus ideais de ganhos financeiros e perdas de vidas. Mas, afinal, o que fazer?

Primeiramente, é preciso perceber e aceitar que o modelo atual das sociedades ocidentais é baseado no consumo. Os conceitos de felicidade potencializados pelo “American Way of Life” nos anos 1950, pós-Segunda Grande Guerra, imperam e fazem com que toda economia seja baseada na compra e venda. Parece estranho, mas nem sempre foi assim.

Hoje, contudo, a economia mundial pressupõe o consumo e gastos exacerbados dos recursos do planeta e, para o ser humano, a ansiedade e os demais distúrbios psicológicos gerados pela falta de dinheiro devem-se, infelizmente, não pela preocupação por não poder comer ou pagar contas básicas como água e energia elétrica, mas sim por não poder comprar.

Quando o comércio foi reaberto as lojas mais visitadas foram as de eletrodomésticos e utensílios em geral. A necessidade da busca da felicidade era tanta que comprar um conjunto de “tupawares” na loja de R$ 1,99 ou uma TV nova no Magazine Luiza fez com que pessoas, impulsionadas por esse modelo cruel, saíssem às ruas e enfrentassem filas para tentar minimizar suas ganas “básicas” de compra.

Tal modelo foi massificado com as duas Revoluções Industriais. A primeira com a invenção do motor a vapor, que possibilitou que o artesanato (produção manual de um item) fosse trocado pela mecanização da produção. A segunda, aproximadamente cem anos depois, viu no Fordismo a chance de produzir cada vez mais num tempo cada vez menor. Surgia a produção em massa, em larga escala que atenderia a todos sempre e desgastaria os recursos da Terra e da psique do indivíduo.

Desde então a poluição do planeta e da atmosfera cresceu exponencialmente, o desmatamento aumentou, mas, de maneira diretamente proporcional a esses, cresceram também os lucros exagerados de poucos e a desigualdade social. Infelizmente, a felicidade buscada na compra de um novo celular ou de um carro pago em 60 prestações não veio na mesma medida.

Nesse modelo injusto resta aos governos reconhecerem a falácia da meritocracia em possibilitar chances iguais para todos, seja na compra ou não de um item, seja no acesso à direitos e solucionar o problema através de investimentos públicos no estado de bem-estar social e na renda mínima para uma parcela de miseráveis que morrem todos os dias e não vê na Covid ameaça maior do que a fome, a violência, a falta de saneamento ou de educação. Segundo a Oxfam, instituição formada por professores e alunos da renomada Universidade de Oxford, atualmente 64 pessoas detêm 50% dos recursos financeiros do planeta. E esse número diminui a cada ano (estima-se que sejam 50 bilionários até 2030) o que indica que quem tem mais terá cada vez mais e quem tem menos terá cada vez menos.

Por isso, é essencial que haja uma discussão profunda sobre desigualdade na distribuição das riquezas da cidade, do estado, do país e do planeta, pois, não haverá governo capaz de garantir investimentos em educação e saúde sem que haja diminuição de desigualdades. Caso isso não ocorra e, honestamente, não consigo enxergar intenções nesse sentido, duas opções restarão para o país: uma favelização gradual das cidades brasileiras ou uma guerra civil que, infelizmente, punirá, de novo, os mais pobres.

 

 

  • O autor é professor e apresenta os Programas Alternativa A e Onda Esportiva.

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Imagem de Claudio Bianchi por Pixabay