Coluna Alternativa A: Darwinismo tecnológico

Darwin estudou a evolução das espécies
  • Por Glauco Keller Villas Boas

Quando, em 1859, o inglês Charles Darwin, após trinta anos de estudos e pesquisas, publica a obra “A origem da espécies”, apresentando ao mundo a então Teoria da Seleção Natural, é provável que o naturalista sabia dos impactos científicos que sua tese representaria. O que, provavelmente, Darwin não imaginou é que sua representação da realidade seria, também, objeto de interpretações em questões sociais e culturais. Darwin estava seguro de que havia matado Deus, mas não as instituições humanas.

No século seguinte, as duas teorias, Criacionista e Evolucionista conviveriam relativamente em paz com poucos embates que sejam passíveis de destaque. A primeira continuava a pregar que, há 5.000 anos, Deus criara o homem e a partir de uma de suas costelas, a mulher. Tal teoria permaneceria aceita dentro da maioria das religiões cristãs. A segunda, hoje considerada fato científico e não mais teoria, se destacaria dentro dos ambientes intelectuais e científicos.

Contudo, historicamente na Terra, tanto a religiosidade como a ciência foram usados pelo capital e pelo poder, em um momento ou outro, para justificar a manutenção dos padrões sociais vigentes. No final do século XIX, o conceito de Darwinismo Social já era difundido na Europa e nos EUA e usava o pressuposto maior da Teoria Darwinista de “o mais apto sobrevive” para justificar acumulo de riquezas, monopólios, desigualdade e pobreza. A falácia da meritocracia ainda engatinhava, mas já via a ciência pelo e sob o olhar social.

Evidenciado pela perspectiva do acumulo de riquezas que chegaria a um patamar medievalesco e imporia a falência de cidades, violência e caos social, surge o conceito político de Progressismo que apresentaria a necessidade de intervenção governamental em alguns setores, coibindo a criação dos monopólios do aço e do petróleo nos EUA e apresentando o Estado de Bem-Estar Social com construção de instalações públicas que visavam atender àqueles deixados de lado pela Seleção Social. Tal modelo impera nas grandes economias europeias até hoje, com destaque para a Alemanha que dispõe de um dos melhores sistemas de Bem-Estar Social do mundo.

Na mesma época, movimentos como Fascismo, na Itália, e Nazismo, na Alemanha, fariam uso dos conceitos Darwinianos para tentar justificar ignóbeis teorias Eugenistas de “limpeza” racial, tentando, via ciência, mais uma vez, extirpar da sociedade aqueles que consideravam “diferentes”, fora dos padrões por esses mesmos estabelecidos, e que significavam para eles um fardo social: negros, pardos, judeus, asiáticos, gays e tantos outros entraram na lista dos descartáveis socialmente.

O escritor Marco Juarez Reichert, autor do livro “A Metamorfose do Vencedor” (Alta Books, 2021) após apresentar um breve e conciso resumo das três Revoluções Industriais pelas quais a humanidade passou nos últimos séculos, discorre sobre a Revolução Industrial 4.0, conceito relativamente novo, em especial no Brasil, e que engloba o uso das novas tecnologias de comunicação e transferência de dados a partir da relação de diálogo entre o homem e os objetos naquilo que ficou conhecido pelo sintagma nominal “Internet das Coisas”. O livro, mescla de pesquisa e longa experiência profissional de seu autor, enfatiza como essas novas tecnologias nos impactam profissional, social e culturalmente. Reichert avalia que o caminho é sem volta e que o crescimento da evolução tecnológica é exponencial.

Concordo e vejo que, nesse contexto, já estamos vivenciando uma nova adequação do fato científico da Seleção Natural para o contexto social: o Darwinismo tecnológico. A pandemia da COVID-19 mostrou às populações a necessidade de mergulhar no mundo virtual para que as sociedades continuassem a funcionar como comunidade e os setores industriais, em especial de serviços, pudessem suprir as necessidades da demanda que continuava a existir apesar do isolamento social.

Profissionais de todo o mundo rapidamente perceberam que tinham em mãos ferramentas tecnológicas – algumas disponíveis há muito tempo – para realizar tarefas, cumprir prazos e promover comunicação. Contudo, o mundo evidenciou de maneira cristalina, como essas tecnologias ainda estão restritas a um grupo pequeno de pessoas em todo o planeta. No Brasil, por exemplo, milhões de crianças ficaram sem aulas, pois nem suas famílias, nem, às vezes, seus professores, tinham recursos de equipamentos físicos, como celulares, computadores ou tablets; ou virtuais, como conexão à internet, para que pudessem estudar geografia, história, português ou matemática.

Assim, potencializado pelas discussões e transmissão de informações instantaneamente, o desafio dos setores públicos e privados se evidencia como nunca em diminuir as lacunas que separam os “mais aptos” dos “menos aptos” tecnologicamente, levando o hardware e o software para o maior número de pessoas do planeta, talvez na criação de um novo Progressismo, agora Digital. A inclusão dos excluídos será, a longo prazo, justa para eles, boa para o mercado de trabalho, que contará com profissionais mais capacitados, e excelente para os governos que gastarão menos com projetos remediativos e paliativos para suas populações.

  • O autor é professor e jornalista.