Coluna Alternativa A: De escapamento aberto para ser ouvido

Por Glauco Keller Villas Boas*

Quem dirige diariamente, certamente, em algum momento já se sentiu inseguro ao dividir as vias, ruas e avenidas com um número aparentemente excessivo de motocicletas barulhentas e rápidas que usam os corredores entre os veículos para passar como flechas buzinando e muitas vezes, desacelerando, mas ultrapassando os semáforos vermelhos.

Sob influência deste sentimento, torna-se fácil para o brasileiro das classes mais abastadas encontrar falhas, descumprimento de leis e legislações, exigir respeito no trânsito e se considerar agredido ao ser fechado em meio ao tráfego por uma moto barulhenta e velha.

Contudo, o modelo de desenvolvimento social, político e de arquitetura e manutenção urbana que são as verdadeiras origens do problema é poucas vezes questionado, por desconhecimento ou má fé.

Há muito tempo que os planos diretores das cidades brasileiras são desrespeitados e o crescimento urbano desorganizado e sem planejamento não leva em conta a criação de vias de acesso que absorvam o tráfego; não combatem politicamente os vazios urbanos criando mais loteamentos e condomínios que exigem que as prefeituras levem equipamentos públicos custosos a locais mais distantes; e falham em não discutir temas que, para os novos bairros, deveriam ser passíveis de leis. Já passou do tempo de todo novo bairro ou condomínio de qualquer cidade brasileira ter, como obrigação legal, fiação enterrada – que possibilitaria um maior desenvolvimento de áreas verdes nas áreas urbanas – , tubulação de água e esgoto nas calçadas e não nas ruas – que viabilizaria maior tempo útil de vida da cobertura asfáltica e menor custo com mão-de-obra e criação de ciclovias que incentivariam a troca de veículos automotivos por bicicletas.

As ruas esburacadas e estreitas recebem diariamente muitos veículos e veem do seu acinzentado e esfarelado asfalto o mesmo cidadão que ao dirigir para seu condomínio de alta classe amaldiçoa o entregador com a moto perigosa e barulhenta, ao chegar em casa pedir a pizza ou o lanche e exigir saboreá-la o mais rapidamente possível.

Da mesma maneira, a reforma trabalhista aprovada no governo Temer, e uma das razões para o golpe parlamentar de 2016, possibilitou sob o belo nome de “flexibilização”, uma precarização sem precedentes das relações trabalhistas brasileiras. Um “motoboy”, hoje, não tem registro em carteira, direito a férias ou décimo terceiro salário, não tem um contratante que minimamente lhe dê segurança profissional e, por ocasião do governo Bolsonaro, perdeu o seguro obrigatório que lhe garantia mínimos recursos financeiros em caso de acidentes iminentes. Hoje em dia, caso se envolva em um acidente de trânsito e não possa trabalhar, o motociclista não tem mais a quem correr. Além disso, sob o prisma do desenvolvimento tecnológico empresas internacionais se instalaram no Brasil e passaram a explorar o mercado do “delivery”, levando ao esgotamento físico, mental e profissional milhares de pessoas que se arriscam diariamente no trânsito das cidades para ganhar quantias que meramente as permitem sobreviver. São em geral jovens pobres e pretos que vivenciam trabalhos análogos à escravidão e que servem às classes dominantes que não mais os enxergam como seres humanos. São apenas os entregadores a quem nem mesmo sabem o nome ou olham nos olhos quando chegam com a comida. São trabalhadores que têm como única forma de protesto seus escapamentos ruidosos que denotativamente fazem barulho para avisar a todos que as motos estão vindo e, assim, conseguirem sobreviver mais um dia nas eswuinas da cidade. Conotativamente berram para serem ouvidos e vistos nos finais de tarde e nas noites da intolerância e da desigualdade de um país.

  • O autor é professor e jornalista.