Coluna Alternativa A: Diálogos com a Câmara

Câmara faz reunião

Por Glauco Keller Villas Boas

As eleições municipais de 2020 começam a mostrar que o leme do transatlântico brasileiro começa a tentar fugir do iceberg da extrema-direita. A incompetência, corrupção, incapacidade intelectual e administrativa do staff desse grupo ficou evidente em menos de dois anos de governos. Além disso, a pauta conversadora de arma, religião e família também não emplacou. Os meninos continuam a usar rosa e as meninas azul, se assim o quiserem.

A derrocada dos candidatos apoiados pelo Presidente da República na tentativa de eleição para o cargo de prefeito e de vereador ficou evidente em quase todos os municípios brasileiros. Aqui em São Carlos, embora use o número 17, o prefeito Airton Garcia não representava o atual presidente e seu candidato teve votação pífia, após ser enganado pela bolha das redes sociais.

Com oito novos vereadores e mais equilibrada política e ideologicamente, a Câmara Municipal de São Carlos terá nos próximos quatro anos, três mulheres (entre elas a excelente Raquel Auxiliadora, quem não conheço pessoalmente, mas admiro o trabalho junto a pautas que envolvem mulheres), não terá nenhum vereador negro e algumas reeleições contestáveis. Destaca-se que o vereador mais votado destas eleições municipais é um jovem idealista que chega com uma proposta renovadora e corajosa: tentar alterar o sistema estando dentro dele.

Fui vizinho de Djalma Nery por dezesseis anos na Rua Dona Ana Prado, mas nunca conversamos, talvez por eu ser um pouco mais velho. Há dois anos, trocamos duas ou três palavras quando estive na Associação Veracidade para entrevistar o, então candidato à presidência da república pelo PSOL, Guilherme Boulos.

Muito bem votado nas eleições de 2016, Djalma só não foi eleito, por conta do quociente eleitoral. Em 2020, estava seguro de que conseguiria uma vaga na Câmara. Pelo menos foi essa a sensação que tive quando, há dois meses, aproximadamente, conversamos longamente em sua casa falando sobre política, atualidades, preconceitos e justiça social. Djalma me recebeu gentilmente em cadeiras confortáveis de um quintal florido e arborizado típico dos velhos terrenos e casas da Vila Prado.

Os vinte minutos previstos para o papo acabaram se transformando em duas horas. Logo no começo da conversa, me remeti intimamente ao blog democracia-direta* do meu querido amigo e professor Álvaro Maia. Álvaro, já há alguns anos, acredita que as novas tecnologias irão em breve substituir a necessidade de representantes populares que, infelizmente, muitas vezes não votam de acordo com o desejo de seus eleitores. Segundo ele, os Reality Shows já nos mostraram que é possível usar o smartphone e através da rede social aprovar projetos e participar de votações em nível municipal, estadual e federal. Obviamente, o processo será lento e alguns segmentos sociais, os quais historicamente decidem em lugar da maioria e em benefício próprio, serão relutantes à mudança que, inexoravelmente, acontecerá. Seremos os últimos a adotar o modelo, assim como fomos os últimos a abolir a escravidão. Mas, mais cedo ou mais tarde, ele irá chegar até aqui.

Na longa conversa, a capacidade de ouvir de Djalma e sua nobreza nas palavras me chamaram à atenção. Jovem, idealista, seguro e maduro daquilo que quer, o vereador mais votado de São Carlos propõe abrir as portas de seu gabinete para ideias, sugestões e novas práticas através de um mandato colaborativo e democrático. Ainda incipiente, o modelo proposto é inovador e desafiador. É um modelo que descarrega sobre o eleitor a responsabilidade de fazer política diariamente e não só no dia das eleições.

Com gestos lentos, sorriso no rosto e brilho no olhar, Djalma tem capacidade intelectual e inventiva admiráveis e se mostra sabedor de sua responsabilidade não só com os seus mais de três mil eleitores, mas sim com a cidade de São Carlos. Optou por tentar alterar o sistema por dentro, aprendendo, ensinando e mudando quando for necessário. Precisará dialogar sem gritar, ouvir e conceder para atingir seus objetivos. Necessitará judicializar e não politizar as ofensas. Usar o parlamento municipal para discutir ideias, propor soluções para problemas históricos e saber que será alvo de agressões e violências pessoais.  Professor, permacultor e ativista político, Djalma é  a representação exata de minorias (ou maiorias minorizadas) que não se sentem representadas na casa legislativa de São Carlos. Falará, certamente por negros, pobres, LGBTQIA* e periferias. Ele me parece muito capaz de entender a necessidade de diálogo com setores mais conservadores e elitizados da sociedade. Se no pleito municipal de 2016, o vereador mais votado foi um jovem de extrema-direita, bolsonarista e que fez do parlamento e de seu mandato um espaço para agressões, ofensas, cinismo e ironias, o candidato mais votado deste ano não é parnasiano é moderno, traz conteúdo e não forma, acredita no livro e não nas armas. Que bom!

*http://democracia-direta.blogspot.com

  • O autor é professor e apresenta os Programas Alternativa A e Onda Esportiva.

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