Coluna Alternativa A: Do teatro ao cinema

  • Por Glauco Keller Villas Boas

De todas as artes talvez o teatro seja, hoje em dia,  o mais esquecido pelas pessoas. Desde as festas Dionisíacas onde a arte surgiu, na Grécia antiga no século VI a.C, superando o obscurantismo da Idade Média, até chegar em Shakespeare, o teatro concebeu-se como arte a partir da representação da vida real em cima dos palcos.

Com o surgimento do cinema no final do século XIX na França e sua popularização nos EUA, o teatro moldou-se através das telas da TV e das salas de exibição. Popularmente conhecidas como Nickelodeons, pois se pagava um níquel (5 centavos) pelo ingresso, as salas lotavam rapidamente e exibiam gravações questionáveis sem que o gênero narrativo ainda estivesse presente.

Ao longo do século XX, o cinema desprendeu-se do teatro ramificando-se em gêneros que passaram a indicar caminhos e temáticas. Desde a ficção científica (Sci-fi), passando pelo Western (filmes de cowboys), até chegar ao suspense do Alfred Hitchcock, a sétima arte foi ganhando seguidores na medida em que evoluía em poucas décadas aquilo que outras artes demoraram séculos para evoluir.

Segundo o diretor dramático e teórico da dramaturgia Martin Esslin (1918-2002), a grande diferença entre o teatro e o cinema é que no cinema e, entendam-se aí quaisquer gêneros e tecnologias, “a câmera e o microfone são extensões do diretor, de seus olhos e ouvidos, permitindo-lhe escolher seu ponto de vista (ou seu ângulo de audição) e transportar para eles a plateia por meio de variações de planos, que podem englobar toda uma cena ou fechar-se sobre um único ponto, ou cortando, segundo sua vontade, de um local para outro”.

O que Esslin quer dizer é que, diferentemente do teatro, o diretor de cinema é capaz de gerar sua narrativa ao controlar os olhos do espectador. No cinema, todos têm de olhar para onde o diretor quer. Se este quer contar sua história a partir de uma lágrima que cai dos olhos de uma personagem, o corte e o zoom nos obrigam, sem desculpas, a olhar para essa lágrima.

O teatro, contudo, dá ao espectador, maior liberdade de escolha, abstração e imaginação, afinal, ainda que todos estejam olhando para o palco, cabe ao indivíduo escolher se irá olhar para a bela princesa no canto esquerdo, para seu pai asqueroso e violento, ou para o príncipe que tenta salvá-la. Além, obviamente, de tantas outras possibilidades como cenário, figurino etc. Neste sentido, a narrativa teatral é mais livre, pois não permite ao diretor direcionar os olhos do espectador com seus fios de marionete de forma tão simples.

Stephen King, o escritor popular mais lido das últimas décadas, em um de seus poucos livros não-ficcionais, “Sobre a Escrita – A arte em memórias”, detalha seu processo de criação e dá dicas de produção textual indicando que para o escritor de livros de quaisquer gêneros, o enredo prévio é um entrave à criatividade. King destaca que o mais importante em uma obra é um narrador e uma ideia que irá se transformar em uma história. Para ele, a história deve surgir durante a escrita, ou seja, o escritor não deve saber seu final antes de começar a escrever.

Stephen King destaca ainda que, além de ser escritor, ele é o primeiro leitor de seus textos e que, como qualquer leitor, adora ser surpreendido pelos personagens, em especial, porque escreve livros de terror e suspense. Aline Bei, jovem escritora brasileira, autora dos Best-SellersO peso do pássaro morto” e “Pequena coreografia do adeus”, pensa da mesma forma. Para ela, nomes, formas, características e enredos das personagens são descobertos ao longo da escrita.

Obviamente, este modelo não se aplica ao teatro ou ao cinema quando falamos em direção, mas, muitas vezes o improviso do ator sobre o palco ou set de filmagem acaba dando o caminho, afinal não são poucas as histórias em que “erros” de texto ou de interpretação transformaram-se em marcas clássicas da obra. Talvez o corte com o copo e o sangue de Leonardo Di Caprio na famosa cena de Django Livre, de Quentin Tarantino, seja um grande exemplo.

Infelizmente, nem sempre o resultado da improvisação é o esperado. Meu querido amigo, grande ator e professor de Literatura Antônio de Almeida Júnior, o Itapê, contava uma das famosas gafes do antigo “Teleteatro da TV Tupi” que ia ao ar todos os sábados ao vivo em horário nobre. O escritor Mário Prata lembra-se da mesma história em seu site oficial.

No ensaio, a mocinha lia uma carta que a tocava profundamente e, em lágrimas, corria para uma mesinha no canto do palco, pegava uma caixa de fósforos e queimava a carta que tanto sofrimento lhe trouxera, saindo em seguida de cena. O galã entrava e, desconfiado, falava olhando para o público: “Que cheiro de papel queimado”.

Começa a transmissão e tudo parece caminhar seguindo o combinado, a leitura da carta, o choro e o desespero, o caminhar para a mesinha, mas onde estão os fósforos? O contrarregra simplesmente esqueceu-se de colocá-los em cena. Sem perder o rebolado, a atriz rasga a carta e sai de cena despejando-a sobre um cinzeiro. O galã, ao entrar, não tem dúvidas. Vendo que sua fala havia sido modificada pelo improviso da colega, manda: “Que cheiro de papel rasgado”.

Se o teatro ainda vai durar com status de arte, honestamente, não sei. Não vejo, infelizmente, o jovem consumindo peças e textos teatrais como antes, mas, essa semana, por conta de uma entrevista que fiz com a professora Giovana Gaeta, que criou uma divertida personagem chamada Bruxolinda para ensinar seus alunos, pensei bastante nele e senti uma saudade que havia muito não sentia. Lembrei-me da sala de teatro, da coxia, do palco, dos textos, das gafes e de poder olhar para onde eu quisesse, quando quisesse, sentado na cadeira de um Municipal.

  • O autor é jornalista e professor.

Imagem: Instituto Claro