Coluna Alternativa A: Escola sem precedentes

A bomba de Hiroshima

Já falei aqui nesta coluna que além da sala de aula, me encanta muito a sala dos professores de uma escola. Nela, ao conviver com colegas sabedores das mais diversas ciências e disciplinas, sempre aprendi sobre o mundo, a vida, sobre a história e sobre as ciências, mas, por conta da pandemia da Covid-19, que já dura dois anos, nós professores não só perdemos a chance de aglomerar na sala de aula, mas também na sala dos professores.

As aulas voltaram presencialmente esta semana e pude retomar o contato com colegas e aprender um pouco mais sobre geografia, ciências naturais e linguagens. Conversei bastante com meu querido amigo e professor de física, Renan Trindade, sobre os preconceitos que os robôs e os algoritmos usados na Internet têm. Pensamos na razão da figura de um homem branco e idoso aparecer na busca por imagens do nosso navegador, assim que digitamos a palavra cientista. Preconceito da inteligência artificial ou estereótipo internalizado pelas máquinas por práticas de seres humanos? Falamos sobre a necessidade de ética na ciência, citando o holocausto judeu e as duas bombas atômicas despejadas sobre as cidades de Hiroshima e Nagazaki, em 1945. Conversamos em grupo sobre as dificuldades e os aprendizados de lidar presencialmente com um aluno autista. Rimos quando disse que toda a sala de aula olhou para minha a filha Angelina quando entrei em sua classe para a primeira aula do ano. Com a turma das linguagens discutimos arte e sua utilidade na humanização das pessoas. Sob o prisma do novo ensino médio, com os itinerários formativos, pude presenciar colegas buscando estratégias para ensinar matemática financeira e me vi motivado ao montar um curso chamado Comunicação e Jornalismo para os meus alunos de primeiro ano do ensino médio. Nele, vamos compreender o processo de comunicação, a linguagem, a mídia impressa, as chegadas de rádio e TV no Brasil e produzir vídeos para o youtube e podcasts em formato de reportagens. Voltamos a discutir aspectos pedagógicos turbinados pela tecnologia que as escolas, coordenadores, diretores, professores e alunos aprenderam a usar durante a pandemia. Pela primeira vez em dois anos, torturando o clichê, vi uma luz no final do túnel ao direcionar meus olhos para o conhecimento, a ciência, a história, as línguas e não simplesmente para  tentar conseguir me comunicar com os meus alunos, se a Internet e a plataforma deixassem. Vi, contudo, preocupado, algumas escolas prosseguirem com práticas que burocratizaram o processo de ensino-aprendizagem e tomaram tempo inestimável dos professores, transformando-os em colaboradores da secretaria da escola e impedindo-os de estudar mais a fundo suas disciplinas e de melhorar seus aspectos didáticos, ao usar seu tempo de criação na elaboração de planilhas, informes, logins, senhas, chamadas para formalização e padronização de um sistema de aulas e não da aula em si.

Há, entretanto, hoje no Brasil, uma conjunção de forças que pode, caso haja mudança drástica no governo federal em outubro, finalmente começar a transformar alguns aspectos da educação brasileira. As escolas, se forem capazes de se desprender dos excessos burocráticos, herança ibérica histórica nas instituições brasileiras, podem mostrar a sociedade que foram capazes de superar uma crise sanitária, econômica e de negacionismo científico sem precedentes em nossa história, aprendendo novas formas de ensinar e se adaptando ao mundo digital tão comum em todas as instâncias da sociedade. Caso haja investimentos massivos na formação e capacitação de professores e autoridades escolares nos próximos anos, em pouco tempo a escola brasileira apresentará resultados muito positivos oriundos da capacidade adaptativa e motivacional das pessoas nela envolvidas. Isso requer valorização salarial dos professores e diretores, investimento em tecnologias que hoje já não mais amedrontam as escolas e a percepção de que é através do conhecimento científico e cultural oriundos da linguagem codificada que nos tornamos seres humanos, pois é isso e o sorriso no rosto que presenciei nas salas de professores que adentrei nessa semana que nos diferencia dos outros animais. Do contrário, continuaremos a olhar para trás e a enxergar um passado glorioso nostálgico e inexistente que, para os ingênuos ou mal-intencionados, pode voltar se a criança souber a letra do hino nacional, mesmo sem significá-la e o se ço jovem tiver uma arma na mão.

  • O autor é professor e jornalista.