Coluna Alternativa A: “Eu não quero ser treinado como um dobermann do sistema”*

  • Por Glauco Keller Villas Boas

No dia 13 de julho, Dia Internacional do Rock, uma afiliada da Rede Globo na Bahia anunciou e fez ao vivo uma entrevista com o velho roqueiro, Marcelo Nova, em seu diário matinal de notícias Jornal da Manhã.

Louvar o velho Rock’n’roll, sua estética e sua aparente perpetuidade eram as ideias da entrevista. Nada melhor do que um velho roqueiro baiano para desmistificar a percepção de que na Terra do Senhor do Bonfim só se ouve Axé, samba, pagode e outros ritmos afro-brasileiros. A entrevista, contudo, ganhou grande notoriedade porque Marcelo Nova foi Marcelo Nova.

Recebi o link em vários grupos de Whatsapp e vi sua repercussão em redes sociais. Sua headline era sempre o negacionismo de Marcelo Nova sobre a pandemia da COVID-19.

Em um mundo de cancelamentos imediatos, de pouca leitura e muita descontextualização, me senti obrigado a ler a todas as matérias e a assistir à entrevista. Nela, com relação ao isolamento social e à pandemia da COVID-19, Marcelo diz o seguinte:

“Para um sujeito como eu, prestes a fazer 70 anos de idade e com 40 anos de carreira, isso não serve pra mim. Eu fiz minhas regras, eu faço meu caminho, eu não deixo que governadores nem prefeitos, nem presidentes, ninguém manda em Marcelão! (risos)”.

 “Isolamento parcial, porque eu não me submeto a esses ditames do ‘fica em casa, fica em casa, não saia, não se aproxime’. Eu beijo quem eu quero, eu abraço quem eu quero… E eu vou morrer, se não morrer de Covid, vou morrer de câncer, atropelado, assassinado, de zika, chikungunya, essas coisas…”, “Eu vou acabar morrendo do mesmo jeito. Todos nós deveríamos, penso eu – me corrija se eu estiver errado -, nós deveríamos amar a vida, o fato de estar vivo, porque respirar não é viver.”

Um dos primeiros punks do Brasil, vocalista da icônica banda Camisa de Vênus e último parceiro de Raul Seixas, Marcelo foi tudo, menos negacionista. Marcelo foi ele. Foi Sociedade Alternativa, “faze o que tu queres, há de ser tudo da lei”. Marcelo foi anarquista e, mantendo a coerência de sua carreira, foi antissistema. Afirmou não aceitar ordens de prefeitos, governadores ou presidentes.

Contudo, para aqueles que conhecem minimamente o movimento punk brasileiro, para quem já ouviu o Camisa, os Inocentes, a Plebe Rude ou os Ratos do Porão, ou, ainda, para aqueles que já mergulharam na verdadeira arte suburbana das periferias e conheceram o RAP, o Hip-hop e nesses novos gêneros artísticos identificaram a exclusão social enxergando neles o novo Punk, Marcelo não foi incoerente.

Em nenhum momento da entrevista o roqueiro negou a existência da COVID-19. Disse apenas que irá morrer dela ou de outra maneira abrindo o peito para a morte como fez ao longo de toda carreira, como relatou em músicas como “Quando eu morri”, do disco A panela do Diabo, de 1989.

A questão posta é que quando o Rock é contra o sistema e nós também somos, enxergamos nele uma rebeldia épica e revolucionária com a qual nos identificamos, mas, quando o sistema somos nós, como no caso da COVID-19, vemos incoerência, negacionismo e corremos julgar para atingir o cancelamento fácil da rede social.

Se eu, particularmente, concordo com o Marcelo Nova? Claro que não. Estou trancado em casa há um ano e meio, só saio de máscara quando é estritamente necessário e já gastei cinquenta litros de álcool em gel neste período, mas isso não está em questão.

Chamar Marcelo de negacionista é para quem faltou às aulas de interpretação de texto. Chamá-lo de incoerente é para quem não conhece sua história e nunca ouviu punk.

Marcelo quis tomar banho de chapéu ao vivo numa manhã de terça-feira na maior emissora do país, fugiu do discurso comum, aceitável e sanitariamente adequado, mas manteve-se fiel aos seus princípios. Não poderá mais falar de Rock na TV Bahia, vai morrer atropelado ou de COVID-19, mas não se curvará ante o sistema, ainda que o sistema esteja certo.

*O título desta crônica é um verso da canção “Câimbra no pé”, de Raul Seixas e Marcelo Nova, constante no álbum A Panela do Diabo, WEA, 1989.

  • O autor é jornalista e professor.