Coluna Alternativa A: Fahrenheit 451 queima a história da humanidade

Por Glauco Keller

No prefácio do livro Fahrenheit 451, do escritor Ray Bradbury, o escritor Neil Gaiman destaca três tipos de ficção especulativa: e se, se ao menos e, se isso continuar, apontando como os livros desse gênero tendem a supor o futuro baseando-se no presente.

Da famosa trilogia distópica do século XX: Admirável Mundo Novo, de Aldous Huxley, de 1932, 1984, de George Orwell, publicado em 1948 e Fahrenheit 451, de Ray Bradbury, lançado em 1953, foi este último que conseguiu prever com maior exatidão o presente distópico em que viveríamos em seu futuro.

Partindo da premissa do se isso continuar, o autor apresenta uma sociedade em que os livros estão proibidos e os bombeiros são encarregados de queimá-los, caso sejam encontrados. Considerados subversivos e contrários à felicidade e ao entretenimento, grandes obras da literatura são queimadas diariamente e o protagonista da história, Guy Montag, bombeiro há mais de dez anos, começa a questionar o sistema após conhecer uma jovem sonhadora chamada Clarisse.

Segundo o livro, adaptado para o cinema pelo cineasta François Truffaut, em 1966 e readaptado pelo iraniano Ramin Bahrani, numa produção da HBO, de 2018, as pessoas deixaram por opção a leitura e a escrita e voltaram-se ao modelo de comunicação imagética.

Vanguardista e polêmico, Bradbury enxergou antes de todos que na década de 1940 os olhares das pessoas tinham trocado os livros pelas telas da TV que se popularizam nos EUA nesta década. Quase 80 anos depois e, com o advento de muitas e inovadoras tecnologias, o efeito Instagram leva cada vez mais a uma “imagetização” de entretenimento e comunicação sem precedentes, como se tivéssemos voltados ao tempo das cavernas com emojis, figurinhas e imagens dos mais diversos tipos. O modelo desta rede social é tão perverso que, simplesmente, não permite que o usuário escreva nada sem que carregue uma imagem antes. Esta, claro, será a referência da postagem. Facebook, o antigo Orkut e mesmo o WhatsApp, outras redes sociais bastante populares, ainda apresentam mecanismos que permitem a escrita sem a necessidade de imagem.

Nesse processo, a literatura, a mais barata e popular das artes, começa a ter de lutar para sobreviver, pois as novas gerações acostumaram-se a não ler e, consequentemente, a não escrever. O último respiro da manuscrita do homem está na escola e esta hoje trava uma batalha árdua e inglória contra o uso excessivo de telefones celulares em seus ambientes. Caso você não acredite nisso, apenas tente responder quantas vezes você manuscreveu algo na última semana. A resposta irá, certamente, lhe surpreender.

Bradbury previu a alienação do olhar para as teletelas das casas das pessoas, a interatividade e o fim dos livros como justificativa para o entretenimento e a felicidade; tão falsos e superficiais quanto às postagens de momentos felizes do Instagram. Foi um visionário.

O pior neste processo de troca da escrita pela imagem é que a literatura tem sido a forma que o ser humano encontrou de prosperar como espécie através de histórias, relatos, memoriais ou crônicas que o eternizaram. Não há como conhecer a história do homem sem a escrita, afinal, foi ela que grafou e gravou nas páginas de papel toda a cultura acumulada em milênios de existência, evitando que a mortalidade inevitável da oralidade acabasse com o conhecimento de muitas gerações.

Daqui a oitenta anos, contudo, caberá ao homem do século XXII tentar interpretar imagens de pratos de comida, pets felizes e selfies cheias de filtros e artificialidades para tentar descobrir como vivemos no começo do século XXI e como começamos a matar a escrita. Não haverá Updike, Steinbeck, Cervantes, Machado ou Clarice.

  • O autor é professor e jornalista.

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