Coluna Alternativa A: Guitar heroes e o fim de uma era

Um dos maiores guitarristas de todos os tempos

Por Glauco Keller Villas Boas

 

História é coisa do passado. Adoro essa frase. Ela diz tudo e, ao mesmo tempo, não diz nada. É verdadeira e falsa em sua essência. História é coisa do passado, simplesmente, porque é, afinal, na disciplina História não estudamos o ano 2045. Necessitamos interpretar eventos que já ocorreram, embora possamos tentar antever os que estão no porvir. Mas, a falácia se dá no esquecimento da coisa do presente. A história está sendo construída agora em cada instante, em cada segundo. Isso, a gente nunca lembra.

Uma das frases que mais me marcaram na “minha própria história” foi quando minha filha voltou da escola aos quatro anos de idade e, depois de ouvir a tradicional pergunta: “o que você aprendeu hoje?”, me respondeu: “Aprendi que eu também faço história”. Fiquei emocionado, afinal, a ideia, de maneira geral, que as pessoas têm da história dos povos e dos países é que essa é feita por grandes nomes, imperadores, políticos, autoridades etc. A Nina descobria que estava criando suas micro e macro histórias.

Ironicamente, a maior prova de que a história está acontecendo agora é que não conseguimos percebê-la. Isso vale para tudo. Política, esporte ou arte. Só a notamos frente a grandes eventos, evidentemente, marcantes, como um recorde Olímpico do Usain Bolt ou um título mundial da seleção brasileira. Quando os eventos são, digamos, mais compassados e duradouros em suas ocorrências e mudanças, temos maior dificuldade em percebê-los e, pasmem, na maior parte das vezes, não os notamos até que esses desapareçam.

A morte do guitarrista Eddie Van Halen, vítima de um câncer, aos 65 anos, me trouxe mais uma vez à mente a velha pergunta que, creio, desde os anos 90 vem atormentando roqueiros de todo o mundo. O Rock’n’Roll está morrendo?

Naquela década, eu era categórico em dizer que não, mas, passados 30 anos, tendo a refletir mais sobre o assunto. Evidentemente, a capacidade de fusão do Rock com outros gêneros musicais é algo sem precedentes na música, mas tais combinações têm, ao longo dos últimos anos, modificado significativamente o ritmo mais famoso do mundo a ponto de, talvez daqui a 20 anos, não encontrarmos bandas de Rock como ainda vemos surgir, ainda que em menor número, nos dias atuais.

Uma das principais mudanças, já evidentes, nas novas formações, é a ausência do guitar hero. Celebrada a partir de meados dos anos 60, o guitarrista da banda sempre se destacava com performances míticas, em meio a fumaças, luzes e solos, às vezes, intermináveis que levavam o público a êxtases emocionais. Nem mesmo os subgêneros do Rock faziam distinção e, obrigatoriamente, recebiam os “deuses da guitarra” em seus palcos e nos seus álbuns. Não havia banda de Rock sem uma guitarra marcante.

Em recente entrevista à Guitar Magazine, Joe Perry, guitarrista da banda Aerosmith, foi taxativo: “Somos todos artistas, quero dar o melhor. Então, quando chega a hora de eu fazer um solo, às vezes, é melhor não fazer. Não é mais preciso fazer um solo de guitarra. Os dias de guitar hero estão meio que no passado. A guitarra virou um equipamento qualquer”, disse.

A percepção de Perry mostra sua sabedoria de perceber que a história está acontecendo agora e que a concepção musical daquilo que será consumido a partir deste momento não passa, obrigatoriamente, pela guitarra como instrumento central de uma banda de Rock ou de Pop.

Obviamente que, como tudo na moda, quatro ou cinco jovens em uma garagem em Liverpool ou em Seattle podem, a qualquer momento, reverter o processo reiniciando um velho padrão. Contudo, hoje, parece difícil olhar para o Rock e enxergar nomes de guitar heroes que tenham menos de sessenta anos. O que acontecerá com o Rock tal qual o conhecemos hoje daqui a trinta anos? Talvez sem David Gilmour, Jeff Beck, Eric Clapton, Slash, Jimmy Page, Pete Townshend, Brian May, Tony Iommi, John Fogerty e Mark Knopfler?

Para os apreciadores do gênero, infelizmente, restarão duas alternativas: olhar para o passado e reviver a nostalgia dos anos 60 ou 70 ou assistir a uma live do Keith Richards direto do Palácio de Buckingham, claro, com a Rainha Elizabeth II empolgadíssima na plateia.

 

  • O autor é professor e apresenta os Programas Alternativa A e Onda Esportiva.

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